É curioso como certos festivais, mesmo em seus momentos mais previsíveis, ainda conseguem surpreender com lampejos de lucidez. Cannes 78 não foi exceção – e tampouco uma edição de rupturas radicais -, mas o que se viu na premiação foi uma tentativa tênue, porém poderosa, de restituir ao cinema algo que, por vezes, parecia perdido: a coragem de olhar o outro como espelho e não espetáculo.
A Palma de Ouro concedida a UM SIMPLES ACIDENTE, de Jafar Panahi, representa mais do que o reconhecimento tardio de uma filmografia essencial. Foi um gesto político, sim, mas, acima de tudo, um gesto humano. Ao premiar um cineasta que persiste em criar sob censura, prisão domiciliar e proibições, o júri presidido por Juliette Binoche reabilita o cinema como espaço de resistência ética, estética e existencial. A beleza – nada acidental, diria – está na simplicidade, na contenção formal que amplifica o grito abafado dos que foram silenciados. Panahi não representa apenas o Irã, mas todos os artistas que, mesmo imobilizados, insistem em seguir filmando, existindo, resistindo. Uma Palma simbólica, portanto, em um festival cuja imagem mais marcante talvez seja a de Fatima Hassouna, assassinada em Gaza, antes de se ver refletida naquele espelho — no gesto poético e brutal de PUT YOUR SOUL ON YOUR HAND AND WALK [foto], de Sepideh Farsi, estreando na ACID.
Voltando aos palmares, aqui figura uma lista um tanto distinta dos modismos recentes, dos espetáculos de outrora de Ruben Östlund, Julia Ducournau e Jacques Audiard, talvez sinalizando um esgotamento: o cansaço diante da contemplação vazia do escândalo. Em tempos em que o cinema é frequentemente reduzido a produto de algoritmos e hashtags de ocasião, Panahi resgata a gramática do humano: um cinema inquieto, implicado, profundamente político – não porque denuncia, mas escuta, nos escuta.
Acertou também o júri ao reconhecer SIRÂT, de Oliver Laxe, obra que pulsa como ferida aberta: uma meditação crua, lírica, sobre fé e pertencimento — ou talvez, só talvez sobre a própria natureza em todos os seus sentidos. E se houve certa generosidade na premiação dupla dO AGENTE SECRETO, é preciso dizer: aqui se premiou não apenas um filme, mas uma memória coletiva, o cheiro de Recife, o tecido social, o gesto de um povo que resiste no corpo e na linguagem. Wagner Moura foi tão somente o veículo (o fusquinha amarelo?) de um cinema que conciliou talento e território.
Já RESURRECTION, de Bi Gan, foi o verdadeiro acontecimento desta edição. Ao lhe conferir um prêmio especial, o júri demonstrou rara ousadia: reconhecer uma obra radicalmente fora dos moldes, dissonante das expectativas narrativas e sensoriais de (qualquer) média festivaleira. Um cinema que exige entrega e provoca desorientação, que se recusa a ser digerido como conteúdo – exibido entre os últimos e, ainda assim, seria inesquecível. O mesmo talvez se dissesse de YES, de Nadav Lapid, obra farsesca e polêmica, aparentemente rejeitada pela competição oficial. Aos meus olhos, não convence, mas, sem dúvida, desloca. E nesse deslocamento, há também algo de humano.
As perplexidades, no entanto, não faltaram… os irmãos Dardenne, presença quase ritual em Cannes, retornaram com JEUNES MÈRES, uma obra comovente, sim, mas cujo humanismo parece fossilizado. Há ternura, mas também repetição. Ainda assim, o argumento do filme se alinha ao espírito dessa edição e o Prêmio de Roteiro se justificou. Já SENTIMENTAL VALUE, de Joachim Trier – uma das unanimidades da crítica, eu incluso – destoou do núcleo humanista da seleção: sim, um filme honesto, digno, drama com ecos devocionais à Bergman, assim diligente, inteligente, interpretado com assombro, mas talvez (ainda) mais encantado com sua herança dA PIOR PESSOA DO MUNDO, do que comprometido com o presente.
A premiação ex aequo para Mascha Schilinski por SOUND OF FALLING revela o apetite do júri por renovação. O filme não sustenta a (pré-)aura de obra-prima que alguns lhe atribuíram, mas aponta uma voz promissora: uma obra em processo, ainda à procura de seu eixo, o que não a diminui, apenas a situa.
Mais controversa (ou não?) foi a escolha de Nadia Melliti como melhor atriz. Sua atuação em LA PETITE DERNIÈRE, de Hafsia Herzi, é sólida e comovente. O filme, por vezes, tropeça em alguns clichês discursivos, mas a personagem, uma jovem muçulmana e lésbica em busca de reconciliação entre fé e desejo, merecia essa entrega. E o júri, aqui, parece ter ouvido mais do que respondido. Não questiono.
Infelizmente, não havia espaço para todos os filmes notáveis desta edição. Ficam os lamentos por NOUVELLE VAGUE, ROMERÍA, TWO PROSECUTORS e THE MASTERMIND. A ausência de qualquer reconhecimento a essas obras talvez seja o sintoma mais evidente de um mal-estar: certos cinemas, por recusarem a estética da comoção fácil ou da denúncia performática, tornam-se invisíveis aos olhos de jurados ainda presos a convenções — mesmo quando desejam transcendê-las. Pena.
E, no entanto, Cannes´78 reafirmou algo essencial: que o cinema, mesmo submetido às pressões do mercado, das pautas do momento e dos cálculos geopolíticos, ainda pode ser um lugar de fricção, risco e verdade. Quando ousa escutar as vozes que vêm das margens, seja do Irã, da Palestina, da memória ou do corpo dissidente, ele volta a ser o que foi em suas origens: um gesto ético de olhar o mundo e, por meio dele, reconhecer a si mesmo.
Por Mauricio Ribeiro
