Sorry, Baby


SORRY, BABY, sorry, mas eis um cinema que serve para nos falar. E com ele, Eva Victor, a diretora, atriz, roteirista, ou tantas mulheres condensadas em uma só presença, nos diz e fala… fala até curar, fala até cansar, fala até que o vazio possa existir sem culpa. Isso não apenas em discurso, mas na forma, em cinema como confissão filmada, catarse controlada, conversa direta entre corpo e câmera sobre o que se resta depois que algo nos é arrancado. Um tempo de palavra, portanto, de trauma e expiação, feito de esquetes, recolhimentos e afastamentos, que nasce do nada, da mais absoluta reclusão, e cresce aos poucos, conosco, no ritmo que for possível.

E o que é dito, não se organiza diretamente pela trajetória clássica do trauma à superação… é algo mais sutil, cinema-terapia que se constrói em espaço seguro onde falar não é mera ferramenta narrativa, mas condição de sobrevivência. Assim, sem explicações. Sem ordem de causa e consequência… o roteiro se sustenta só no que sobrou: cada cena embasada em sua urgência elementar de dizer tudo antes que a experiência volte a se fechar sobre si mesma.

Há, nesse gesto, uma recusa clara ao espetáculo do trauma. O acontecimento em si nunca é mostrado, nunca ocupa o centro da encenação. Ele aparece pelas beiradas, nas entrelinhas, nas frases interrompidas, no humor/não-humor que surge como mecanismo de defesa, de válvula de escape e funciona assim, meio improvisado mesmo, só para seguir adiante. Formalmente, é um cinema que se comporta como uma conversa que não se encerra. A câmera apenas ligada e gravando, deixando o texto acontecer, sem pressão, sem neuras, nada de conclusão. É amiga de podcast que permanece próxima, respeitosa, sentadinha observando Eva Victor e Naomi Ackie conversando. Não à toa os enquadramentos tão econômicos, por vezes contidos demais, e justamente por isso reveladores. Há algo de profundamente político nessa escolha: devolver à protagonista o controle do ritmo, da exposição, da retirada. É quase um direito (adquirido?).

O tempo é o verdadeiro eixo dramático da narrativa. Não o tempo cronológico, mas o tempo da experiência traumática: irregular, repetitivo, cheio de retornos inesperados e suspensões abruptas. A cineasta compreende que certos eventos não se acomodam no passado. Eles continuam reverberando, reaparecendo sob novas formas, exigindo outras palavras, outras distâncias. E nisso, o filme cresce, pelo acúmulo de acontecimentos, mas pela sedimentação emocional.

Nesse sentido, o que se vê é quase um diário falado, mas sem jamais cair no exibicionismo confessional. O “eu” que se apresenta está sempre atravessado por uma dimensão coletiva, uma consciência clara de que essa vivência não é isolada, mas existem outras presenças orbitando esse relato. Então nós, o público, também somos convidados à conversa, não pela identificação imediata, mas pela disposição de empatia. De acolher. De ouvir. E pertencer ao lugar que só poderia existir porque a palavra necessária foi dita antes. E talvez seja esse o gesto mais radical de tal experiencia: afirmar que nem toda reparação é visível, que nem toda história precisa de fechamento, que às vezes o cinema existe apenas para garantir que alguém possa falar até não precisar mais.

RATING: 78/100

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REVIEW · SUNDANCE · CANNES · MOSTRA SP

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