





Há histórias que não se deixam contar de pronto, se esquivam, se encolhem, fogem no escuro como um ator prestes a entrar em cena. VALOR SENTIMENTAL, de Joachim Trier, é uma dessas histórias que habitam o intervalo entre o que se sente e o que não se sabe nomear. Como a ansiedade que se aloja no peito antes da primeira fala no palco: a boca seca, a respiração que vacila, os joelhos que fraquejam, como se o chão (ou o passado?) pudesse ceder a qualquer momento, como se o figurino, apertado demais, quisesse vestir os fantasmas à força. Aqui, tal cinema, ou filme, ou teatro se debruça nos confins do drama humano, aqueles onde o afeto existe, mas tropeça ao tentar se expressar; onde o amor é mera memória abafada por palavras jamais ditas. Trier não dirige apenas um filme, ele escuta o que se esconde nas entrelinhas. Escuta o silêncio, escuta a pausa, escuta o não dito. Ele filma o que se evita, o que se engasga, o que se repete como eco entre as paredes de uma casa antiga – e tal como um eco, isso retorna, reverbera… quase em catarse.
Aliás, A casa da família, retratada carinhosamente como um ser vivo em uma redação da infância, não é apenas cenário… seria outro personagem: uma espécie de relicário de memórias rotas, guardião de ressentimentos sussurrados, maus entendidos passados de geração em geração como retratos empoeirados. Cada corte sutil para o preto é como caminhar entre os cômodos, abrir uma porta com rangido e encontrar um novo fantasma à espreita. Cada sala, uma câmara acústica da alma: os gritos permanecem nas paredes, as lágrimas se infiltram sob as tábuas, os risos flutuam junto ao teto. Sim, essa casa, filmada como arquitetura espectral, conhece seus moradores melhor do que eles se conhecem entre si.
Trier, então, costura essa narrativa com precisão, testando os personagens, os tons emocionais, captando dissonâncias com uma sensibilidade que beira o musical. Centrado em duas irmãs dignas de um drama bergmaniano, com interpretações magníficas (acima de todas, a já quase divina Renate Reinsve), a trama gira em torno de um diretor (Stellan Skarsgård, também extraordinário) tentando realizar um filme sobre sua mãe, estrelado por sua filha – um gesto artístico que, mais do que homenagem, é uma tentativa desesperada de costurar os cacos de uma família estilhaçada. Mas SENTIMENTAL VALUE não é um filme sobre cinema. O cinema, aqui, é mero artifício, um meio de conexão, mas também de evasão. A arte é o idioma que essa família encontra para se dizer sem se confrontar. Uma língua de imagens onde o amor é implícito e a dor, editada.
Sem o brilho efervescente dA PIOR PESSOA DO MUNDO e isso é intencional, este é um cinema mais denso, mais retido. Um sussurro em vez de grito. Em vez do tumulto da juventude, há o peso dos anos, a herança das decisões antigas, a estranheza do reencontro. A ansiedade (social?) aparece como aliteração: palavras que se repetem, que se emaranham, que se atropelam, como se falar demais fosse uma tentativa de esconder o que realmente importa. E talvez seja isso que Trier queira nos mostrar: que o amor, às vezes, é um móvel pesado demais para ser movido sozinho. Que certas conversas só acontecem quando o silêncio cede, quando o figurino deixa de sufocar. Que há um valor sentimental nas coisas que não conseguimos jogar fora, nos objetos, nas memórias, nas casas, porque, mesmo imperfeitas, ainda são tudo o que temos.
RATING: 88/100

TRAILER

