A Useful Ghost: Uma Ajuda do Além


Por um breve momento, tudo se resume à poeira: poeira que cintila no ar, que entra pelas frestas, que se acumula sobre o esquecimento… poeira que é tanto partícula quanto metáfora, tanto resíduo quanto fantasma. E é entre o limiar do visível e o evanescente que A USEFUL GHOST constrói sua tapeçaria de memórias, um ciclo de amores improváveis e assombrações políticas. Com sombras evidentes de Apichatpong Weerasethakul e Alexandre Koberidze, o filme de estreia de Ratchapoom Boonbunchachoke é só mistério… uma saga de poeira acumulada ao longo do tempo, escondendo e revelando histórias, ou talvez uma anedota tailandesa contada à beira do sonho: após a morte de sua esposa, vítima da poluição industrial, seu espírito reencarna em um aspirador de pó. O viúvo, no entanto, continua a amá-la e decide provar que esse amor não é apenas real, mas também útil.

Daí o título curioso, ao mesmo tempo irônico e profundamente político. A figura do fantasma, tão presente no imaginário tailandês, aqui se configura como um corpo deslocado, um resíduo da História, um ser que insiste em permanecer mesmo após ser varrido pelos ventos do progresso e da repressão. Alguém que recusa a morte e cujo retorno é um ato de protesto. E, ao se manifestar nos objetos domésticos mais banais – um aspirador, uma harpa, uma pedra -, essas presenças carregam uma dimensão crítica: a de que tudo que foi oprimido ou esquecido (pessoas, gestos, revoluções) retorna em forma impura, para assombrar a lógica do presente.

A sensação oscila entre o concreto e o etéreo. Há uma beleza artesanal nos efeitos analógicos, nas transições entre sonho e vigília, e na expressividade esvaziada dos atores — que parecem atuar como quem ora ou sonha. O filme jamais adere ao kitsch pelo kitsch, embora brinque com o exagero do figurino e a teatralidade dos cenários (especialmente nas cenas dentro da surreal sala de eletrochoques, que mais parece saída de um delírio soviético reformado por Wong Kar-Wai).

O humor é sutil, quase zen, mas sempre presente. Não como escárnio, mas como uma lógica interna absurda que se impõe com naturalidade: claro que o aspirador fala, claro que a luz pisca com emoção, claro que a cabra atravessa o quadro antes de surgir um intertítulo. “Um fantasma é menos higiênico que um monte de pó”, diz alguém, e é nessa inversão cômica que o filme brilha, ao tratar o surreal como burocracia e o afeto como escândalo.

Também não se pode ignorar o pano de fundo político que estrutura a narrativa como exorcismo histórico. Ao resgatar edifícios apagados do passado revolucionário tailandês e ao dar forma simbólica aos mortos que “ainda não partiram”, o filme se inscreve numa linhagem de cinema que vê o real não como dado, mas como campo de disputa: aquilo que foi esquecido ressurge, aquilo que foi varrido retorna como poeira, e tudo o que é sólido se desmancha no ar (ou em partículas flutuantes).

No fim, a parábola não busca resolver seus conflitos, nem purificar os vivos, nem exorcizar os mortos. Ele sabe que há poeira demais no ar para que se possa enxergar com nitidez. Mas é nesse embaçamento poético, nesse entrelugar onde tudo se acumula (memórias, fantasmas, amor ou luto), que o filme encontra sua força. Porque, como a poeira, ele se recusa a assentar: paira, insiste e nos obriga a olhar para o que – de outra forma – normalmente ignoramos.

RATING: 77/100

TRAILER

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REVIEW · CANNES · TIFF · RIO · FILMES LGBT

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