Eddington


Ari Aster perdeu a cabeça. Ou talvez todos em EDDINGTON as tenham perdido… e talvez por isso o que se vê na tela seja um dos retratos mais lúcidos da América contemporânea. Ame ou odeie, é um faroeste suburbano, nascido das cinzas de um país em confinamento onde cada cidadão virou seu próprio pistoleiro digital, duelando ao pôr do sol com golpes de opinião e fake news. Filmado no calor febril do verão de 2020, entre máscaras recusadas e celulares em punho, o filme transforma o deserto do Novo México em um espelho rachado, um oásis de poeira e paranóia onde a história americana se repete como farsa grotesca.

Sim, o diretor sempre mirou alto, já o fez com HEREDITÁRIO, MIDSOMMAR e BEAU TEM MEDO, mas agora abandona qualquer pretensão de conciliação com o público e entrega um filme descontrolado, transloucado, sem freios. “Estamos presos num sistema de feedback”, ele diz, “e esquecemos que sabemos disso.” Sua sentença, então, é LARANJA (MECÂNICA?): filmar uma nação que desaprendeu a pensar fora do reflexo.

No centro da trama (ou do nó?), Joe Cross, o xerife interpretado por Joaquin Phoenix, encarna a mitologia do homem comum: o herói decadente, apegado às armas, às certezas e ao delírio conspiratório. Quando decide concorrer à prefeitura contra o progressista Ted Garcia (Pedro Pascal), o embate que se segue não é apenas político: é teológico. MAGA contra woke, Bíblia contra algoritmo, bangue-bangue contra Big Data. O duelo entre os dois vira uma missa profana, encenada nas ruas à beira do colapso moral.

A América como um campo minado, onde cada casa é um bunker, cada frame um púlpito. As máscaras e vacinas, os slogans e protestos… tudo vira munição. O que Aster constrói aqui é uma sátira sem anestesia, um mosaico de vozes em colapso, lembrando Robert Altman, mas sem o consolo da harmonia. Os enquadramentos são vertiginosos; a câmera parece tropeçar junto com os personagens, como se o próprio filme tivesse ingerido o veneno que retrata. Não há equilíbrio, nem sanidade, apenas os lampejos de comédia que se infiltram como riso amargo, o riso de quem reconhece o absurdo e já não sabe mais chorar.

Naturalmente, a violência irrompe como catarse inevitável. É óbvio (e coerente!) que o texto se recuse à neutralidade. Pelo contrário, a narrativa é uma gangorra extremista, subindo e descendo enquanto desmonta mitos, desmascara ideais, expõe o ridículo e a melancolia de um país que perdeu o rumo. “As pessoas não estão erradas”, parece dizer o filme, “apenas foram enlouquecidas pelo sistema”, o público – estarrecido – idem.

Não é um filme fácil, nem agradável. Um búfalo que se suicida no desfiladeiro vazio; uma elegia para o sonho americano transformado em estrondo. No fim, o que resta é a poeira, a ironia e o eco das vozes que se engoliram umas às outras. Certamente não vai agradar a todos (não mesmo!), mas é um cinema necessário para enxergar, entre os estilhaços, a verdade de um país que se perdeu dentro de si mesmo, todos completamente cegos.

RATING: 69/100

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REVIEW · CANNES · MOSTRA SP

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