Dois Procuradores


Eis a ZONA DE (des)INTERESSE, ou um exercício de tensão lento, lentíssimo, conduzido por Sergei Loznitsa como um despacho interminável, redigido à máquina falha de um regime moribundo: cada cena, cada frame se arrastando como carimbo molhado que demora a secar e toda essa burocracia do medo, o protocolo da inquietação gotejando e murmurando e especulando, enquanto a narrativa tateia pelos corredores mofados de um edifício estatal onde o tempo não progride, apenas se acumula em poeira. As interações sempre pontuadas por silêncios densos como selos oficiais, carregam a ameaça muda de algo hediondo prestes a acontecer, mas nada acontece, então o filme avança como um trem fantasma do fascismo, arrastando vagões de ferro frio e janelas cegas, percorrendo os trilhos corroídos das instituições que ainda rangem sob o peso da obediência cega. É um cenário glacial, recinto de gelo ideológico, onde os ecos dos horrores de Stalin ressoam como memorandos malditos, arquivados em nome da ordem. O roteiro (prolixo até o paroxismo) desdobra-se em um monólogo extremo de murmúrio mecanizado, ad infinitum. Um panfleto (outro? mais um?) que não precisa de destinatário pois o mundo sempre foi, e segue sendo, um cartório da crueldade.

Ao público, cabe a sensação de se fechar em uma sala sem janelas. A narrativa acompanha um (coitado) promotor não como herói, tampouco como mártir, e sim como engrenagem recém-lustrada que ainda acredita na lógica interna da máquina. Cada deslocamento dele pelos corredores do Estado amplia essa sensação de aprisionamento, como se o mundo fosse um arquivo infinito onde gavetas se multiplicam para esconder o mesmo vazio. A justiça, aqui, não se corrompe de forma espetacular, ela se dissolve em papel timbrado, em portas que se fecham com delicadeza administrativa, em rostos treinados para não reagir. Loznitsa constrói essa progressão com uma precisão quase cruel, mantendo a câmera imóvel, recusando alívio visual, obrigando o espectador a dividir o ar rarefeito daquele ambiente onde qualquer gesto fora do protocolo já nasce condenado. Não à toa, a narrativa não avançar em linha reta, mas circular, retornar, insistir, como um processo que nunca termina porque sua finalidade real nunca foi resolver nada.

Tal sensação de aprisionamento não se limita à arquitetura dos espaços, mas também no pensamento: o protagonista acredita agir corretamente, confia na gramática do sistema, aposta na clareza dos procedimentos, e justamente por isso se afunda. Cada tentativa de entendimento aprofunda o mal-entendido estrutural, cada passo adiante estreita o caminho possível. O suspense que surge, é implícito, quase subliminar, vem da constatação lenta de que não existe saída conceitual, apenas a continuidade. A burocracia funciona como pedagogia do medo, ensinando a todos qual o limite exato da respiração permitida, o mundo se organiza em repetição exaustiva de rituais administrativos, onde a responsabilidade sempre escorre para outra mesa, outro departamento, outro andar e tudo opera corretamente demais para permitir qualquer fissura.

Ao final, Loznitsa encerra o percurso sem catarse, sem redenção, sem gesto final que alivie a tensão acumulada. O que permanece é a sensação de ter atravessado um labirinto desenhado para parecer racional, embora só produza esmagamento. TWO PROSECUTORS termina como começou, com o peso da ordem intacto, com o indivíduo reduzido a ruído administrativo, com a certeza desconfortável de que sistemas assim não pertencem ao passado, apenas aguardam condições favoráveis para voltar a funcionar.

RATING: 75/100

TRAILER

Article Categories:
REVIEW · CANNES · TIFF · RIO · ROTTERDAM

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.