Dias Perfeitos

A manhã se desenrola lentamente. Ninguém percebeu ainda, exceto a idosa varrendo folhas caídas com sua vassoura de bambu. E é o varrer da vassoura de bambu que abre os DIAS PERFEITOS de Wim Wenders, um filme que aos poucos vai tomando forma diante de nossos olhos, tal qual o dia que se pronuncia ao protagonista: ele, Koji Yakusho, então acorda e, sem avisar, se levanta. Ele dobra seu fino colchão de dormir, desce as escadas e começa a se preparar para o dia. Ele lava o rosto, faz a barba com o barbeador que usa há décadas, apara o bigode com uma tesourinha. Esses movimentos perfeitamente eficientes parecem ser de uma rotina de longa data. E talvez o seja porque para o cineasta, o personagem, o público que assiste, cada dia parece repetir as mesmas coisas repetidamente, embora não sejam dias iguais. Cada dia sempre traz algo novo. Basta observar. Profundamente. E dessa ode à solidão, senão a contemplação das pequenas coisas, que se filma o que os japoneses chamam “komorebi”, palavra que não cabe tradução em nenhuma outra língua, mas no cinema de Wenders se faz sentir pela dança das folhas ao vento, a luz do Sol que transpassa as folhagens das árvores e nos ilumina. As mesmas folhas que, porventura, cairão para a idosa varrer no dia seguinte. E que “dias perfeitos”, você pensa. “Just a Perfect Day”, nos toca a canção de Lou Reed.

A história – que história? – é pura simplicidade e modéstia: um homem que se tornou faxineiro e nada mais. Satisfeito com as poucas coisas que possui, entre elas sua velha câmera fotográfica, seus livros de bolso e suas velhas fitas cassetes, ele tão somente vive. E tal rotina se torna a espinha dorsal do roteiro porque a beleza de um ritmo tão regular de padrão de dias “sempre iguais” é reparar nas pequenas coisas que não são iguais e mudam a cada vez. O fato é que se você realmente aprender a viver inteiramente no hoje, no momento, não haverá mais rotina, haverá apenas uma cadeia interminável de acontecimentos únicos, de encontros e momentos singulares.

Então, um cinema único que nos leva ao reino da felicidade e cujo contentamento é desfolhar esse mundo através dos olhos do personagem, mesmo no mais comum e aqui representado no mais comum dos lugares que são os banheiros públicos. Diante dessas pequenas obras-primas arquitetônicas, Wenders faz um singelo road movie, filma literalmente o “Bem Comum” e não à toa dedica seu trabalho ao mestre Yasujiro Ozu porque ambas as filmografias dialogam no sentido de cada pessoa ser única, que cada momento acontece apenas uma vez e que as histórias do dia a dia são eternas.

RATING: 83/100

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FESTIVAIS · REVIEW · CANNES · SAN SEBASTIAN · RIO

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