Diários de Otsoga

Render-se, mãos e pés atados ao longo do tempo, render-se com deleite ao poder majestoso do Rio Cronos, essa é a força incomensurável e inigualável desse DIÁRIOS DE OTSOGA (ou no francês, JOURNAL DE TÛOA): um lugar para ignorar o curso dos dias, esse poder divino, e caminhar à vontade pelo espaço, cruzar os arcanos temporais em ambas as direções para ali se aventurar em terras luxuosas de um futuro que já se tornou passado e de um ontem que se tornou amanhã. E sob tal contexto de reclusão – imposto ou voluntário -, é que o filme-bolha de Maureen Fazendeiro e Miguel Gomes se apresenta, tão incrível na sofisticação quanto na simplicidade, um diário e um não-diário de confinamento, feito com a pura alegria de filmar, de criar cinema e apenas conviver entre amigos enquanto se faz um filme.

Logo, uma narrativa simples para voltar no tempo, transformar a experiência desastrosa da COVID em uma invenção do Paraíso, mesmo que essa partilha de vida e cinema decorra exclusivamente dentro de quatro paredes: assim, em alguma Quinta portuguesa lá em Sintra, donde se isolam atrizes, atores, uma pequena equipe de filmagem e a família, sem falar dos animais, ali se conta a reclusão em um pequeno exercício paradoxal de liberdade e beleza. O método? O mesmo dAS MIL E UMA NOITES, mas em pequena escala e orçamento, a câmera tão somente ávida em captar o que vem, o que já está aí ou o que vai acontecer… aqui somente uma casa de fazenda isolada do mundo, um belo jardim entre uma equipe de cinema e o filme nesse artesanato diário, improvisando planos e cenas do dia a dia, como se circulasse no calendário as coisas mais fugazes, mas marcantes da vida.

Todos esses frames são atos de cuidado e gestos atentos: o cuidar das plantas e os animais, a atenção às emoções, às dúvidas e aos desejos de cada um e de todos. São (pequenos) momentos de prazer, atos de florescimento e sensualidade às aventuras mundanas, algo que se estabelece desde AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO ou foi abril? Ou março? Não importa porque os cineastas constroem algo ali, assim como a estufa tropical (des)construída pelos três atores… e a vida determinando a arte, a arte mudando a vida. A narrativa muito livre, regredindo quase ao cerne da utopia, senão um renascimento lúdico e feliz. E voilá: um filme desses, dOS SONHADORES diria Bertolucci, todo cheio de vida e de amigos. E sobretudo a vida dos cineastas, o primeiro feito em conjunto pelo casal. Não à toa, eles embarcam no tratorzinho do hype, eles, os atores, nós, o público e todos nesse trailer, talvez uma das mais belas sequências do filme, talvez um documentário, talvez ficção, é impossível resumir sem dizer muito. Deixemos ao tempo decidir.

Mas é justamente esse tempo, o detalhe eloquente; ou a nossa percepção do tempo, a tal genialidade: um texto que desafia a linearidade, que trabalha com a repetição, a suspensão e a descontinuidade sem, no entanto, embarcar numa estrutura demasiada complexa ou barroca. Tudo é muito simples, o filme avança e o tempo volta: a última cena é o beijo portanto, mas no filme é a primeira, assim como no calendário é “agosto”, mas no título se escreve ao contrário – “otsoga” – e nisso estamos entregues à ficção, sendo a ficção a rodopiar na própria realidade. Soa muito exótico. Aliás a produção, o jogo de luzes, sombras e cores, tudo sugere um paraíso exótico, um lugar de isolamento, meio distante, para ali se perder, entregar-se ao tempo, embora no quadro branco haja sequências a rodar, dia a dia e tudo de novo. O resultado é o começar e o terminar de uma festa ao som de “The Night”, aquela maravilhosa canção de Frankie Valli & The Four Seasons, que sugere o fim de uma história de amor, mas acontece que aqui é exatamente o oposto: um beijo. Que filme lindo.

(*) Crônica livremente inspirada do material cedido pela Shellac, incluso entrevista com os diretores em Cannes
RATING: 79/100

TRAILER

BÔNUS


CANÇÃO TEMA: “The Night”, de Frankie Valli & The Four Seasons
Article Categories:
REVIEW · CANNES · TIFF · MOSTRA SP

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