Memória

Um estrondo… o próprio cinema estremece aos nossos ouvidos como se placas tectônicas deslizassem sob o córtex, tensionando, chicoteando, se colidindo até que a força entre elas se torne irreversível e, dessa revolta, arrebente em um estouro para, depois, diminuir completamente, ceder em absoluto vazio. E é nesse silêncio que MEMÓRIA começa, repousa e se vai, o som seco, o zunido estático, isso até que a discrição envolva completamente o público, a cabeça se esvaziando de qualquer pensamento, longe de toda lembrança que ainda permaneça para, então, novamente se ouvir outro barulho e sobressaltar. Nisso, entre picos e ecos, Apichatpong Weerasethakul tão somente filma o esquecimento, o esgueirar quebradiço da amnésia sobre pedras e escombros, o entrecho lento, diria cirúrgico de sua câmera em torno do mais estático dos planos para você perceber, sentir ou ao menos suspeitar qualquer tremor. Olhando para esta imagem quase imutável, ouvindo o menor farfalhar da paisagem sonora, ao espectador resta apenas buscar as respostas para todas as perguntas insones de Tilda Swinton, ela própria nesse objeto espacial que se insinua como videoarte, mas em parte é um suspense místico.

Sendo o primeiro filme do cineasta fora da Tailândia, MEMÓRIA, no entanto se esgueira pela mesma iconografia de inconsciente coletivo: de novo estamos em um hospital, onde a protagonista visita sua irmã doente; de novo uma estranha doença se espalha na região, agora em Bogotá. Desta vez, todos têm algum tipo de problema de memória ou, ao menos, somente a Tilda tem esses problemas – muitas vezes ciente que suas próprias memórias contradizem as histórias dos habitantes locais. E esse arco fica em aberto, especialmente porque a heroína tem outro problema muito mais importante: ela ouve regularmente um som fantasma que lhe atormenta.

Outros personagens surgem e se vão (com os estrondos): Jeanne Balibar é uma arqueóloga que nos convida a inserir os dedos no crânio de uma garota morta há 6000 anos. Bang! Juan Pablo Urrego é um técnico de mixagem que, dentre um milhão de sons, tenta compor exatamente aquele que explode em nossa cabeça, ele é o jovem Hernán. Bang! Elkin Díaz apenas se deita na grama para ouvir tudo o que acontece, assim como as pedras e árvores lhe sussurram expressões e memórias dos séculos, ele é o velho Hernán. Bang! Nisso, como outrora em CEMITÉRIO DO ESPLENDOR, o cinema flui em certo estupor, movimentos sutis pelas cortinas do sonambulismo para captar muito lentamente o ato de se levantar, caminhar e espreitar os mistérios, isso na selva circundante, em diferentes camadas do tempo e sob olhares de criaturas invisíveis. Parece, estamos a flutuar em torno da atriz, não à toa seu nome seja Jéssica, uma alusão à personagem de Jacques Tourneur em A MORTA-VIVA (1943): com ela seguimos o som retumbante, experimentamos a SÍNDROME (E O SÉCULO?) e vivenciamos o extracampo, o extra corpo, quase em um transe persistente cujo acordar, não poderia ser menos, é um monumental ataque de epifania.

RATING: 85/100

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REVIEW · CANNES · TIFF · MOSTRA SP

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