Bergman Island

Por Eduardo Benesi

Ela é um pouco avessa a farsa turística, se sente oprimida por lugares muito perfeitos, gosta do flow. Ele está entregue ao roteiro, feito um turista clichê e no meio do caminho ainda ganha paparico de fãs. Gosto de como o filme confronta visões distintas sobre uma mesma jornada e o quanto “coisas invisíveis” passam a interferir na vida desse casal. Num ano glorioso para obras como “The White Lotus” ou “Nove Desconhecidos”, obras que também encontram eco no escapismo burguês, venho aqui exaltar um filme, esse filme, que só por Vicky Krieps já nos daria o charme necessário para visitarmos e eu também achei que ela de repente iria envelhecer na praia (contém intertexto).

Minha admiração por BERGMAN ISLAND cresceu de virada desde que vi o filme e o achei bom e tal e só. Não ia ter nem texto mas aí me apaixonei pela paixão dos outros, e como é bom olhar os outros olhando, há cinema aí. Não se trata apenas de um safári que serve aos fãs de Bergman e quem não viu PERSONA, beijos. É um filme que retrata formas plurais de se viajar e isso inclui camadas de subjetividade. O fato é que já poderíamos ter feito um filme delicioso apenas por isso, por falar de viajantes reflexivos que não estão atrás de lugares, mas sim de locações. Gente que veio fisicamente reimaginar um filme, um diretor, um legado – e, enquanto isso, trabalham. Uma tal busca por “existir dentro” e um frescor parecido com CÓPIA FIEL.

Se há um momento em que Mia Hansen-Løve me desperta uma fagulha no coração é quando “o quarto do divórcio” é apresentado como “o quarto que separou milhares de casais pelo mundo”. Ali a narrativa evoca declaradamente num diálogo, o poder do cinema enquanto entidade atuante no (in)consciente coletivo de uma época ou de uma geração inteira.

Elogios à parte, sinto que o que mais me desagrada em BERGMAN ISLAND é o que mais arrebatou a crítica. A meta-camada ficcional que passa a intercalar a narrativa parece me distrair de um filme que já estava dando certo, que por si só já trazia questões interessantes sobre aquele parque de diversões cinéfilo, um sequestro na hora errada. Depois de abrir o guarda-roupa e “encontrar Nárnia”, o filme se perde na total falta de carisma de Mia Wasikowska – que para mim sempre será um equívoco hollywoodiano. E então temos um ex-excelente filme que em determinado momento é traído pelas suas vírgulas.

RATING: N/T

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REVIEW · CANNES · TIFF · MOSTRA SP

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