Um Herói

Por Eduardo Benesi

UM HERÓI é Farhadi voltando a ser Farhadi: uma obra que ousa pandemizar a mentira de modo que ela grude de corpo em corpo como um fenômeno replicante, sistêmico e altamente autofágico. A sensação de Cannes, a menina dos olhos da Mostra SP, eis aquele filme que cresce quando você escuta o que cada um guardou no bolso (ou entendeu). As revelações oscilam entre o desvendamento de tudo e ao mesmo tempo de coisa nenhuma. O que se vê é a moral da falta de moral corrompendo personagens imersos por uma cultura pautada pela reputação. Talvez seja o longa – ele mesmo – algo que existe para satisfazer a uma escaleta extensa e ambiciosa por paradoxos ou do rocambole se faz um novo rocambole.

Primeiro é preciso condecorar a elipse como um ponto alto na engenharia Farhadi. O diretor é hábil em não mostrar agora para mostrar mais tarde e melhor fazendo nosso hipocampo funcionar para o futuro: o que os olhos não veem o cérebro deduz. A pergunta que não cala é: Farhadi é um diretor de pequenos grandes detalhes ou grandes detalhes pequenos? A cena em que Rahim (o Irandhir deles) se vê refletido numa superfície como se a sua imagem finalmente fosse confrontada a sua suposta persona fraudulenta é de um primor simbólico não feito pelos ingênuos, a metáfora estética ali colabora com todo o dilema do antagonista vestido de herói (enquanto o possível herói está vestido de antagonista).

É de fato um filme digno de nota alta, mas não chega a impecabilidade pois é forçosamente escorregadio em seu terceiro ato e, quando entrega ao que veio, parece ficar nos devendo a grande catarse e, então, temos tão somente um filme apenas ótimo (sim, apenas ótimo e eu nunca achei que usaria tal expressão). Já entre os grandes êxitos, é bastante competente a sugestão do zeitgeist como um ponto de oportunismo para o acaso, o falar do universal e do contemporâneo a partir do advento das imagens como evidências acusatórias nas redes sociais. A meticulosa estrutura que o diretor cria para que a mentira vá buscando cada personagem, para que a mentira não tenha privacidade a ponto de nos olhar nos olhos e embaraçar os eixos da representação. É isso: o cinema persa é sempre um lugar para se arrebatar de bom cinema, um tempo que vale a pena, uma prova de que, quando não sei, enxergo melhor.

RATING: N/T

TRAILER

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REVIEW · CANNES · TIFF · MOSTRA SP

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