Domando o Jardim

É cinema de arrebatamento: céu azul, mar azul, o azul em tudo. E ao centro uma velha árvore de majestosa coroa flutuando sobre o mar… o que parece uma pintura surrealista é uma das imagens mais cativantes de DOMANDO O JARDIM, de Salomé Jashi: cativante e ambivalente em igual medida, porque o transportar dessa árvore faz parte de um projeto ridículo – o hobby de um homem extremamente rico que coleciona velhas árvores, cavando e trazendo para seu próprio jardim -, e é também fascinante pela contemplação que apresenta, a própria cena de abertura se confunde entre realidade e poesia, um flerte ÀS QUATRO VOLTAS, de Michelangelo Frammartino, com ecos de Ermanno Olmi, Abbas Kiarostami e Andrei Tarkovsky. E donde cada frame é simplesmente vida, o som, a natureza: o agradável farfalhar das folhas, o cantar dos pássaros, o ronco dos tratores trabalhando, os aldeões fuxicando, o silêncio que dispensa palavras em uma extraordinária viagem sensorial. O resultado é estonteante, um cinema invisível que sopra encantamento em tudo que nos envolve.

Há todo um ruído controverso entre aqueles que estão assistindo sobre os porquês de o homem fazer isso e o que eles deveriam fazer com isso. Simplesmente porque ele possa pagar por um hobby tão excêntrico, talvez? E por mais absurdo que pareça o transplante de árvores, isso pelo sinal de poder, riqueza descarada ou a conquista da natureza, fato é, do modo que Salomé filma, um evento de grande magnitude e catarse, todo esse ato de arrancar uma árvore e a transportá-la – e não uma árvore qualquer, mas a mãe de todas, cuja copa faz sombra em todo um pomar de mexericas e a altura supera um prédio de 15 andares. Então, a cineasta eleva sua câmera pelas encostas de uma quieta aldeia georgiana e circunda os estágios de andar do velho monólito e o faz em ode à rivalidade entre homens e natureza, o ínfimo e o gigantesco, escavando e recolhendo as imagens e nos reportando em toda sua dimensão, a paisagem ao redor sendo despedaçada, as pessoas ao redor sendo forçadas a se adaptar à interrupção, esse curioso processo de “migrar”, onde “desenraizar” é mais do que uma metáfora.

Testemunhar tais imagens é como observar uma falha na matriz: assistir esse homem alterar paisagens, mover árvores, deixar populações perplexas, tudo por causa de seu prazer, pode ser estranhamente hipnótico, mas por outro lado, sugere certo desconforto pelas expressões simbólicas, como a ideia tóxica de masculinidade, ou migração forçada, ou de um país, onde os valores e a sensação de estabilidade estão constantemente flutuando… sim, é um filme que induz o pensamento livre, a meditação evocativa de um mundo surreal que paradoxalmente também é baseado em fatos. E assim, infelizmente caminha a humanidade. E as árvores.

RATING: 76/100

TRAILER

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