Olga

OLGA em princípio, fala de ginástica artística. Elie Grappe filma a paixão de uma adolescente, todo o esforço, os treinamentos, o corpo em ação e os consequentes desafios pessoais e coletivos desse esporte, que o cinema jamais ousou filmar. No entanto, vai além, porque explora o potencial elo entre fronteiras geográficas e pessoais. Faz um filme sobre o exílio, com uma jovem que sente que não pertence onde está, dividida entre várias lealdades e enfrentando uma situação de cidadania além dela. Então, são dois filmes, duas séries de movimentos rápidos e contínuos, duas histórias de largadas e retomadas, giros e suspensões, a filha na Suíça, a mãe na Ucrânia, e a ginástica de sentimentos ecoando nos dilemas de Olga.

O filme olímpico por si só, com seus sons e constante movimento é bastante fotogênico. Há espaço (dramático) para tal evento, as respirações, o olhar ansioso, as hesitações e constantes erros. É uma história de superação donde se sente a vulnerabilidade das ginastas, tão somente meninas, mas cuja humanidade se esconde na empunhadura, no rigor do salto e na complexidade do exercício. Então, outro filme surge de atropelo: de repente, a tela acorda de seu estupor, por um minuto se assiste estoicamente na tv, como se atiram dezenas de granadas de gás lacrimogêneo entre tantos manifestantes e como esse grupo, do outro lado, heroicamente recua e avança. Entre lágrimas, entre gritos, o rugido da insurgência, a zona de conflito, o ônibus em chamas, as pedras atiradas, a barricada da polícia. A imagem não descansa, nem o povo, abalado, emaranhado, revoltado. Uma mulher tosse em espasmos, mais pedras, mais granadas. A situação se perde. A câmera filma sua mãe, jornalista. Ela cobrindo os protestos de Maïdan, 2013.

É senão outra dose de intensidade para um filme já intenso. Olga é assombrada pelas imagens de sua cidade, do país que abandonou para competir. Uma Ucrânia que ela não reconhece mais. Atleta de alto rendimento, ela se vê completamente perdida diante dos acontecimentos que afetam a vida da mãe, que desaparece. O cinema então flutua entre barras assimétricas, um momento suspenso no tempo, em constante estado de tensão. Ao público, resta segurar a respiração e torcer pela personagem, na tela Anastasia Budiashkina. Ela é a chave para a emoção do filme, ele todo feito com não-atores, um elenco de ginastas profissionais e daí o espetáculo do esporte. Já os protestos, esse é material de arquivo, filmes de celular. Nisso, o cineasta se mantém à distância: ao fundo, o Maïdan, o protesto, a competição e os jogos – também um cinema magnifico de pormenores. E o filme nesse exercício, sempre se movendo, clamando, rodopiando. É recompensador assisti-lo. Vale um pódio.

RATING: 74/100

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REVIEW · CANNES · MOSTRA SP

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