A Porta ao Lado

“Ele é ator, mas não é dos bons, já discutimos isso”


Em A PORTA AO LADO, Daniel Brühl está no pelinho da canastrice (como outrora “Tom Cruise” esteve no ÚLTIMO SAMURAI): ele, uma estrela de cinema, um homem de sucesso, família, dois filhos pequenos e babá, vivendo em um apartamento onírico em Berlim e prestes a ser super-herói em Hollywood. É a vida perfeita, diriam, mas o detalhe são os outros, particularmente um homem em uma mesa de bar, talvez um fã, talvez um stalker, ou somente o vizinho atento. Fato é que serão quase 90 minutos de pura maldade, homens alemães inflados de cerveja e café, cantando de galo um para o outro nesse meta-cinema alemão no osso! E, claro, divertidíssimo.

É o filme de estreia de Daniel Brühl também. O roteiro é de Daniel Kehlmann, um pudim de temas sociais e políticos, como gentrificação e injustiça social, pressão para realizações e medos de fracasso. Aqui, tão somente uma peça de câmara tortuosa, apenas dois homens com diferentes origens em um pitoresco restaurante. Ambos em choque de classes sociais, em um duelo de palavras cinicamente inteligentes em um pub qualquer. O que torna outrora uma comédia de absurdos aos poucos em thriller psicológico: o remoer de um ator famoso e multilíngue, que descobre repentinamente sua própria farsa.

O grande vilão (?) é Peter Kurth, seu Bruno todo cheio de veneno e recalque, uma pequena aranha tecendo a teia no decorrer do filme, em que Daniel está cada vez mais preso. É um mero conhecido de um bar aleatório, ninguém. Sem dúvida têm seus lados bons, mas outros certamente assustadores. Sua conversa fiada envolve, seduz. O protagonista sequer o conhecia antes, mas vai se envolvendo nessas revelações, os joguinhos de poder e ego. É vingança? Chantagem? Não há razões aparentes… somente a emoção do mistério.

O resto é teatro, mas você nem percebe: passa muito rápido e com poucos personagens e, portanto, todo o desenvolvimento sobre eles (incluso as reviravoltas). A narrativa nesse embate de comédia e tragédia, quase na loucura. É um filme sobre Berlim, um filme sobre a profissão do ator e todas as consequências que a vida de uma personalidade famosa tem, até mesmo um filme sobre filmes de super-heróis, sem muitos super-heróis. E, sim, sobretudo um filme sobre vizinhos. Aí está o horror (ou as delícias do humor ácido).

RATING: 72/100

TRAILER

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REVIEW · BERLIM · MOSTRA SP

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