Marinheiro das Montanhas

Na tela completamente negra, em vermelho bem vivo, surge um emaranhado febril de palavras sobre calentura e o delírio frênico que atinge espontaneamente os marinheiros em longas viagens, quando eles se encontram nas proximidades da linha equinocial ou em direção aos trópicos. A manifestação da calentura ocorre durante a noite, enquanto o marinheiro dorme: o indivíduo acorda privado do uso da razão e corre em direção ao convés do navio. Lá, ele imagina haver em meio as ondas que quebram em alto mar, árvores, florestas e prados adornados de flores. Ele se alegra com essa miragem e sua alegria irrompe em mil exclamações. Logo, ele mostra um desejo ardente de se atirar no meio do que avistou, como se sua missão tivesse finalmente sido cumprida. Se os outros marinheiros não forem suficientes em agilidade ou em número para se opor ao capricho da demência, sua morte é certa.

E é na calentura que abre o MARINHEIRO DAS MONTANHAS, na sinfonia de luz difusa que se move, se afasta, se aproxima, como as ondas. É difícil dizer o que realmente é: talvez uma nave espacial, o começo do mundo ou uma miragem de uma cidade esquecida. Talvez seja um reflexo na água de um monstro adormecido. Sereno. Esquecido. É, enfim, o filme que começa, ou melhor, o princípio da hipnose desse pequeno cinema-leviatã: uma experiência extrema que nos engole em sua loucura, no frenesi, nessa sensação ao mesmo tempo, estranha e familiar.

A origem desse êxtase poderoso é um conjunto de imagens e sons que, em primeiro plano, identificam a sensação de pertencer e não pertencer. O que vemos em primeiro lugar? Um aeroporto, as nuvens, o mar. Algo se move, arrebenta nas ondas. Sim, “ele” se move, mas por quê? O próprio Karim Aïnouz nos conta, ele brasileiro por proveniência e malevolência, sendo argelino por nome e acaso, sempre viveu no interstício, nem aqui nem acolá, mas em algum sentido em todos os lugares. Seu filme é uma carta aberta à mãe, Iracema. Um diário de viagem epistolar de um país onde seu pai nasceu, escrito no meio do nada, no meio do Mediterrâneo, num barco enferrujado de bandeira argelina.

São objetos, luzes, elementos, corpos, ruídos… o início é sem ênfase, como outrora a gênese: um rearranjo progressivo e instável que o caos molda sem forma. O destino é tão somente a Argélia, depois Cabília, esse é o lugar que sentiremos o cheiro, a cor, a cara, um lugar que sempre assombrou o cineasta e vai nos assombrar. Talvez seja um sonho, alguém correndo no quintal de casa, um homem ao mar. A narrativa é completamente ensaística e intuitiva, deixa livre o pensamento. Aproveita a espontaneidade e a imprevisibilidade que o texto oferece, sem percorrer um caminho claro, sem mapa ou plano, somente o destino e a câmera sem direção, de um lado para o outro nesse cenário de rostos e rostos de paisagem. Uma caminhada pela noite, sozinho, para logo se perder no oceano mesmerizante de gente.

Talvez seja um filme de amor porventura, a poesia que se vê da natureza, do humano, do invisível. Um balé de gigantesca saudade, de vivos e mortos, de cidade e guinchos e rangidos, de movimentos sísmicos e sorrisos do oceano, do céu, da massa enorme de histórias de um povo donde a câmera é arremessada, lavada, inundada. Um objeto estranho em um meio estranho. Caótico em seu jogo de luz e sombra. Em imagens escassas, confusas. Um relance a planar, a rodopiar, a circundar, em torno do limbo. Às vezes sob. Às vezes sobre. Dentro. Fora. De dia. De noite. Em ilusórias conversas em plano sequência, encharcado pela água, pelo sal, pela terra.

É, afinal, um poema que nos deixa atordoados diante de tal intensidade. De tantas convulsões coloridas de cenas se debatendo, surgindo e sumindo. Uma grande ópera romântica, onde nada é metáfora e tudo é concreto. Onde vielas e mitologia trabalham ao homem, que sonha, que vive, conta sua vida nesse vai-e-vem em comunhão, onde o som também é ensurdecedor. Repetitivo. Extenuante. Para enlouquecer. Para arrebatar. O resultado, sim, é monstruoso: uma gigantesca calentura para nos atirar de súbito nesse país sem rosto, sem choro, sem passado, sem rancor. Depois de vê-lo, a vontade é de voar até chegar de volta em casa, onde quer que seja e nadar, nadar, nadar, de volta aos braços da mãe, com muita saudade de nossas origens. E tanta saudade do mundo.

RATING: 80/100

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REVIEW · CANNES · MOSTRA SP

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