Lingui

LINGUI, a palavra chadiana para descrever “vínculo”, “conexão” ou o ato de conviver; um termo que nos implica na solidariedade, donde só se pode existir porque outros existem, que é lingui, que é o fio comum, o vínculo sagrado do nosso tecido social. O que resume uma filosofia altruísta, uma palavra que simboliza a resiliência de uma sociedade diante de terríveis julgamentos e provações. E quando o lingui é quebrado, ele prevê o início de um conflito. E o conflito é o filme de Mahamat-Saleh Haroun, seu primeiro longa feminino e feminista, historias reunidas de mulheres solteiras, viúvas ou divorciadas, que criam seus filhos sozinhas. Muitas vezes marginalizadas pela sociedade, elas, no entanto, vivem como podem, mas não se consideram vítimas. São as protagonistas não cantadas da vida cotidiana que o cineasta agora ajunta num só enredo: a via-crúcis de Amina, a mãe solteira cuja filha grávida deseja fazer um aborto, isso em uma sociedade patriarcal-afro-islâmica, um claro manifesto ideológico, um grito de dor compartilhado de tantas vidas abandonadas.

Você já viu esse filme, o espetáculo de subdesenvolvimento cultural, econômico, social, com todos os seus derivados, essa condição subalterna da mulher, lembro dE BUDA DESABOU DE VERGONHA, de Hana Makhmalbaf; OSAMA, de Siddiq Barmak; O CÍRCULO, de Jafar Panahi; até recentemente com BALLAD OF A WHITE COW, de Behtash Sanaeeha & Maryam Moghaddam, e aqui nada diferente: uma peça para se indignar, estremecer, até se revoltar, pelo encadeamento xiita das adversidades. E pior, porque se enquadra ainda no subgênero de filmes de aborto, a mesma sangria vista nO SEGREDO DE VERA DRAKE, 4 MESES 3 SEMANAS E 2 DIAS e NUNCA RARAMENTE ÀS VEZES SEMPRE, logo o inferno, imagine um contexto em que o aborto é um crime ou um pecado (ou ambos)… então bem-vindo ao Chade.

O esquema narrativo é o clássico, um trem-fantasma pelos porões de uma sociedade já cega pela política, a religião, a misoginia enraizada em tantos dogmas e ignóbeis que surgem pelo caminho, são os familiares, um vizinho, um imã, pessoas sem ética, sem moral, verdadeiros predadores. E como sempre, um cinema ancorado na realidade desse país, donde os personagens não são heróis, mas pessoas muito comuns na sua eterna busca por sobreviver. LINGUI é assim, artesanato feito de uma sutil mistura, um suspense ao qual se integra o panfleto social que lhe dá toda a sua força. Acima de tudo, realizado com simplicidade, sem nenhum efeito além de silêncios e pausas, e de doar aos seus personagens, eles próprios tão simples, uma dimensão universal baseada somente em suas origens. E pelo qual, o ritmo nos permite respirar, refletir, afinal nos religar com tal gente tão distante, isso é o lingui, afinal.

RATING: 67/100

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REVIEW · CANNES · TIFF · MOSTRA SP

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