Tre Piani

TRE PIANI, o filme de Nanni Moretti, assim como o livro de Eshkol Nevo do qual se baseia, conta a história de três famílias que vivem no mesmo prédio. Literalmente, são três confissões, cada qual envolvendo um andar, nesse lugar isolado, tranquilo e discreto que nos parece ser uma pequena vila burguesa e outrora seria em Tel Aviv, mas o diretor o fez em Roma. Basicamente é uma novela única, não apenas às referências em cada arco para os personagens de outros níveis, mas pelos temas morais que permeiam todas as três histórias e, entre elas, a metáfora de Freud sobre a dinâmica da existência humana: as questões de Id, Ego e Superego.

No andar de baixo (o inconsciente que comanda nossos impulsos e desejos), um pai passa a acreditar que o velho que vive no apartamento em frente, a quem ele deixa sua filha para tomar conta, abusou da menina. A segunda história (o pré-consciente que tenta mediar nossos desejos e a realidade) também é uma fantasia de censuras sutis, dessa vez a de uma mulher, cujo marido está perpetuamente ausente, ela em depressão pós-parto, sem saber ao certo como reagir diante da bebê pequeno, a solidão, mesmo a loucura que, sabe-se, pode ser hereditária. Por fim, no terceiro andar, vive o próprio Moretti (o consciente superego que nos chama sempre à ordem), ele, um magistrado às voltas com seu filho problemático. As três histórias de altíssima psicanálise filosófica, todos os julgamentos sobre culpa, paternidade, a própria existência do ser. Os personagens, frágeis e assustados, movidos por medos e obsessões, e muitas vezes desencadeando atos extremos. E enquanto no livro, as histórias são interrompidas no auge da crise, no filme elas seguem até o fim, estudando as consequências das escolhas feitas, mesmo as repercussões que tais ações têm sobre suas vidas e sobre a dos entes queridos. E talvez aí esteja o principal erro da adaptação, porque o arco final carece de qualquer emoção, ou finalidade dramática.

Enfim, é um filme que nos lembra como relacionamentos íntimos trazem benefícios e dificuldades: dentro dos casais, entre pais e filhos, entre vizinhos. A impressionante cena de abertura (um motorista perdendo o controle de seu carro para, depois, colidir em uma parede) é o prólogo de tudo o que vai acontecer com os protagonistas nessa terapia-filme, eles constantemente em colisão. Em alguns casos, as consequências serão dramáticas. Em outros, haverá redenção. Mas ninguém permanecerá indiferente ou intacto. Incluso aí o público, principalmente quem conhece o trabalho do cineasta que adapta em italiano um romance israelense, isso pela primeira vez filmando algo que não fosse seu, daí a estranheza, talvez a perplexidade.

Muita da linguagem do cineasta se perde em um minimalismo pragmático, aquele sarcasmo ferino que sibila por toda sua filmografia, aqui, inexiste. Sem espaço para risos, comoção ou catarse, tão somente é um filme-proforma, desses passatempos qualquer, donde cada história foi desenvolvida em separado e, depois, entrelaçada com as outras, sem qualquer jeito narrativo ou arranjo criativo, como se o diretor e seu texto também se colidissem entre si. O resultado não poderia ser outro: um (triste) melodrama.

RATING: 62/100

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REVIEW · CANNES · TIFF

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