O Cavaleiro Verde

Dessas histórias que datam da Terra Média, de lugares antigos, quando gigantes caminhavam e não havia olhos desse tempo, fosse um grande mito de grandes feitos, um conto de Natal para reis e rainhas, ou mesmo a bravata de nobres às suas donzelas, donde havia contendas e tristezas, canções de cavalaria ou apenas alguma aventura emocionante, desse banquete, David Lowery evoca um cinema e o faz sob uma fanfarra de trombetas e tambores para trazer diante das câmeras, um filme digno de tais desventuras: de um lado, Sir Gawain, do outro, O CAVALEIRO VERDE, entre eles o desfiladeiro e o tempo e nós, o público, encantados por tal vislumbre. Não é pouco. É um cinema que se impõe, que surge de bruxaria e nos adentra com grande pompa, ele sem elmo, sem cota de malha, não um escudo, não uma flecha, algo para choque ou para golpe, mas em uma mão, um feixe de azevinho, e na outra, um machado feio e monstruoso, senão um filme implacável correndo apressado, ao corredor entrando, avançando para o estrado e ali, nos fazer um desafio, um mero passatempo se diz, todavia é o golpe (de mestre) para nos fazer perder a cabeça.

Sim, o cineasta faz novamente um conto de fantasmas, como outrora em SOMBRAS DA VIDA, mas agora sobre um povo mágico: parte de uma mitologia conhecida, as tais lendas arthurianas, relatos galeses, ingleses e irlandeses do passado celta e algo da tradição cavalheiresca francesa da Idade Média, essas histórias versavam sobre o Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda, os amores de Lancelot e Guinevere, a busca pelo Santo Graal e aqui, particularmente uma menos conhecida, um poema épico do séc. XIV, intitulado “Sir Gawain and the Green Knight”, traduzido e compilado por J.R.R. Tolkien em 1925. Lowery, então, faz sua releitura, uma odisseia cinematográfica ao desconhecido em todos os seus versos e simbolismos, alegoria e mistério, imagens que engolfam o público e não o deixam. Uma peça abstrata portanto: não um conto fantástico como em EXCALIBUR, de John Boorman; não um relato de guerra e heroísmo como CAMELOT, de Joshua Logan; nem uma desconstrução ousada como LANCELOT DO LAGO, de Robert Bresson, mas uma nebulosa jornada existencial sobre estranha magia, diferentes arquétipos e uma vibração experimental, que nos permite conectar imediatamente à uma velha história com novos olhos.

À história, portanto: Gawain é sobrinho do Rei Arthur e convidado de honra na celebração de Natal. Também é filho da feiticeira Morgana (uma licença poética nessa adaptação), cuja determinação em garantir seu futuro, coloca todo um plano em movimento. Assim, vemos seus atos de magia, as festividades serem interrompidas pelo Cavaleiro Verde e um desafio ser proposto, intimando qualquer pessoa a golpeá-lo, com a condição de, no ano seguinte, ela retornar à Capela Verde para receber o mesmo golpe em troca. Nisso, Gawain “perde a cabeça”, aceita impulsivamente o jogo, balança uma espada e decapita o oponente – que por sua vez se levanta do chão e foge. Um ano muito rápido depois, o protagonista parte na aventura de destino incerto. Existem ladrões astutos e donzelas espectrais, gigantes errantes e uma raposa no caminho. São testes de coragem, naturalmente – o tipo que um aspirante à cavaleiro deve suportar e dominar: provas para perder a cabeça, ou por covardia, ou medo, ou luxuria, afinal desonra, mas o progresso do “herói” é obstinado. E de todas as maneiras, cada um dos interlúdios parece sempre remeter ao desafio original do dia de Natal.

Alguns podem achar o filme muito lento, fato, mas a complexidade elegante com o qual se constrói a atmosfera narrativa, cada frame imbuído de significados profundos, os duplos misteriosos que se repetem ao longo da narrativa, como a “fotografia”, a mulher vendada, a (outra) cabeça decepada ou então, o simples girar da câmera em torno do seu eixo, um movimento que parece acelerar – ou mesmo reverter – a passagem do tempo, ou talvez insinuar um novo desfecho, as formas como os bens valiosos somem e se reencontram, afora as profundezas do sobrenatural (a floresta, a casa de Santa Vinifrida, os favores no castelo do Barão), cada detalhe que se reflete nas sombras, nas cores, nas diversas representações da água, todo esse filme para falar de humanidade e ser humano, ação e reação, cristianismo e paganismo, natureza e civilização, isso caminhando pelos mortos, os fantasmas, as escolhas, já disse, não é pouco. Na verdade, é uma historia que demanda (diversas) revisões e, mesmo assim, não nos deixará por muito, muito tempo.

RATING: 88/100

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