A Night Of Knowing Nothing

Sons difusos, estática, zumbidos… UMA NOITE DE NADA SABER começa enigmático: deveria ser uma incrível história de amor, como “Romeu & Julieta”, dizia a sinopse, me prometia a assessora, mas na tela somente imagens difusas, indo e vindo em um vislumbre de chuva, fogueira crepitando, mar bravio e rio correndo revoltoso. Parece, havia dentro de um armário na sala S18 de um albergue do Instituto de Cinema e Televisão da Índia, uma caixa com vários itens variados – recortes de jornais, flores secas e cartas de amor para não esquecer. Entre elas, havia essa carta-filme escrita por uma aluna da escola de cinema, cujo nome apenas se identifica por “L”. Seu amado, ele partiu.

‘Meu amor, como você está? Penso em você cada vez mais, ao que parece, com o passar dos dias. Alguém poderia pensar que seria o contrário, mas não é assim. Ainda não estou conseguindo colocar minha cabeça no lugar. Ontem, “M” veio tomar chá. Ele me disse que está tendo um sonho estranho e recorrente. Ele o narrou para mim e foi realmente estranho. E enquanto ele falava, tudo o que eu conseguia pensar era em nossa situação. Eu suponho que… está tudo bem? Como eu posso dizer a ele, que sua família lhe trancou no quarto e não lhe deixa sair… tudo porque você queria se casar comigo? Tudo porque eu não nasci em uma casta “superior”? Como eu poderia dizer a ele que, se você voltasse, eles poderiam matar nós dois? Então, eu lhe disse que você estava lidando com um problema de família. Essa é a verdade, eu acho. De qualquer maneira, há uma festa hoje à noite. Eu não queria ir, mas talvez eu vá apenas para tirar esses pensamentos da minha mente. Estou pensando em você. Sua “L”’.

Parece cinema de amor, sem dúvida, cinema de sentir, mas as imagens, elas não condizem com a narrativa. Mostram uma festa, talvez a festa da carta, mas o tom é sombrio, de um certo dark noir. Algo parece errado. A assessora, então, nos escreve: ‘caro jornalista, vivemos uma situação de censura muito precária no momento. Vários cineastas, jornalistas e artistas foram alvos do governo por fazerem declarações que critiquem o sistema. A fim de proteger as identidades dos participantes deste filme, bem como proteger os cineastas de qualquer reação do governo, esperamos que você tenha algum cuidado ao revisar o filme’. O e-mail estava assinado pela cineasta, “P”.

A menção ao filme é muito vaga, pouquíssimas fotos de divulgação, nenhum kit de imprensa, sequer se divulga que é um documentário. A sensação ao vê-lo, é a mesma de desarmar uma bomba relógio, uma tensão que mistura realidade com sonhos, fantasias e medos, uma narrativa amorfa que desvela uma memória frágil. Um texto complicado que, acho, ninguém poderá compreender totalmente. Já disse do que se trata? É sobre uma garota. Ela está tendo uma “crise existencial”, parece. Ela sente saudades do amado, que se “foi”, um filme de amor, portanto.

Então, o som do vento, dos tambores, do borbulhar dos estudantes… lembra-me da saudosa canção de Chico Buarque, “Cálice”, das receitas de bolo de fubá que os jornais publicavam nos anos 70. Logo, os alunos se reúnem para “celebrar” seu novo reitor, “G”. Ele foi nomeado assim, por desejo triunfante de alguém que chegou ao governo. Ninguém se lembra dele, sequer teria credenciais para esse cargo, mas enfim, ele fazia novelas, acho que “Malhação”, é o suficiente. A tal festa é para celebrar o reitor, fizeram uma festa à moda de Godard. O tema é maio de 1968.

É um bonito filme. De amor, naturalmente: pessoas se apoiando nos ombros, um do outro, fechando os olhos com o cansaço de estarem vivos. Talvez sejam amantes, ou não, apenas irmãos, pais ou professores. Alguém canta ao fundo: “quando alguém ama, o que há para temer?” e a tela inflama de vida, de cinema, de amor pelos seus. Muitas cartas estão em branco. Tantas outras foram arrancadas, rasgadas. Algumas tem as iniciais de seus nomes escritas e riscadas. Tantas outras jamais chegarão ao seu destino.

‘Respira. Inspira. No meu sonho, eu tinha ido à uma festa. Muito de nossos amigos estavam lá, todos gritavam eufóricos, mas de repente… havia uma van, eles tiraram grandes canhões de água e enxarcaram todos. Era muito estranho a água começar a derreter todos. “P” desapareceu… “H” desapareceu. A água caiu sobre “R” e ela também desapareceu… depois “S”. “H”. “N”. “D”. “S”. “M”. “U”…’

Como dizia Camões, em alguma capa da Folha depois de dezembro de 1968: “é ferida que dói, e não se sente”.

RATING: 78/100

TRAILER

em breve…

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REVIEW · CANNES

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