Medusa

Logo de cara, MEDUSA nos petrifica: seu olhar sedutor nos deixa catatônicos. É o filme a nos observar, um cinema ocupando territórios, lugares, função que não lhe pertence. O simples olhar é uma arma mortal, nos subjuga, nos inferioriza. O filme abre pelos olhos e nos devora pelos olhos, os olhos enigmáticos como estrelas. Distantes. Glamorosos. Intocados. Em seu olhar, eles giram, hipnotizam e giram mais uma vez, a câmera se distanciando aos poucos, imagens de monstruosidade e beleza, estranheza e prazer. Que filme é esse, Anita? O balé de uma Górgona? A dança do demônio? Um possuído femme fatale? A coloração – verde, vermelha – atribui feições grotescas. É a mulher se rebelando, o feminino à caça às bruxas. Um surto psicótico, ame ou deixe.

Como em MATA-ME, POR FAVOR, o tom é extremamente febril, começa naturalmente, como na Odisseia, na Ilíada ou em tantos Brasis: uma história de Górgonas (na tela, “as preciosas”), a lamúria de “irmãs” primordiais que vão às ruas pelo divino, somente pelo assobio das serpentes em sua cabeça, os gritos lúgubres e desesperados, bradados por decapitação, o rosto da monstruosidade coberto de máscaras de fealdade – “Você merece ser punida, pecadora!”, gritam ferozmente. São os monstros na jugular da vítima, petrificando, cancelando. Elas não são humanas, são monstros de outro reino, talvez um templo de criaturas grotescas, donde a mulher remonta à Pandora e aos males da humanidade, ou talvez à Eva enganada pela serpente para ser expulsa do paraíso. Ali, elas são vigiadas (e orai), elas aceitam Jesus no coração e se tornam mulheres devotadas, recatadas e submissa ao senhor. Que benção!

Se na antiguidade, Medusa foi punida por Atenas e transformada em monstro; nesse filme, outra lenda se conta: dizem que em tempos obscuros e pecaminosos, cheio de bares e boates, havia uma mulher, ela se chamava Melissa, que fazia coisas estranhas. Andava rindo, debochada, depravada, destruidora da moral. Ela era atriz e dançarina, vivia sempre na rua, bebendo, dançando com homens diferentes. Um dia, na Sexta-Feira Santa, ela novamente estava na rua, como se fosse carnaval, até que uma “iluminada” apareceu, uma mulher vestida de anjo, uma máscara branca. Em uma mão, ela trazia um copo de querosene e na outra, um isqueiro. E andando bem devagarinho até a pecadora, fez a única coisa a ser feita: tacou fogo na cara dela – que horror! -, mas não, não era fogo dos infernos… era o fogo que limpa!

Anita Rocha Silveira nos conta, portanto, uma distopia evangélica – “Quem está sentindo Jesus aí minha gente? Jesus está nesse filme”, conclama Thiago Fragoso. O faz em pleno controle, como ultimamente o cinema brasileiro o fez, com Gabriel Mascaro em DIVINO AMOR (2019) e Lázaro Ramos em MEDIDA PROVISÓRIA (2020). Seu filme é uma contundente fábula feminista, de muitas camadas e versículos, sobretudo no tema da objetificação da beleza. Não à toa essa obsessão pelos cabelos crespos/chapinha, os tutoriais de maquiagem para “mulheres cristãs”, as recorrentes cicatrizes e a deidade às clínicas plásticas: tudo é o resguardo do atributo feminino, da sexualidade; Também a padronização da mulher pelos homens, aqui retratados como “vigilantes de Sião” na mesma rima visual de BOM TRABALHO (Claire Denis, 1999). O resultado é um filme para nos acordar do estupor, tirar esse Brasil do coma. Um filme que nos encerra num grito estrondoso para colocar a mulher em seu devido protagonismo.

🎶 Sonhei com uma casa e um jardim pra eu poder cuidar
não vou nunca mais me preocupar, a casa vou incendiar,
até casei com um homem de bem, jurou sempre me amar
mas me acertava por inteira sangue pra nunca revidar
se eu escutasse aos que me chamam de louca, jamais iria me salvar
minha mãe dizia: filha sempre queda só assim você vai escapar
vai contar para suas irmãs que enfim posso gritar:
aquela casa hoje é lenda
sorrindo a ver queimar
sorrindo a ver queimar
sorrindo a ver queimar 🎶

RATING: 75/100

TRAILER

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REVIEW · CANNES · TIFF

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