Rien à Foutre

“Agradecemos a atenção e desejamos a todos uma ótima viagem”: esse filme de filtros instagrameáveis, muito azul e close-ups, para desconstruir a carreira de uma comissária de voo (Adèle Exarchopoulos) e essa ponte aérea entre o inglês e o francês, tantas cidades e rapazes, um cinema celular dependente, por conta dessa (falta) de rotina, idas e vindas, afora todo o glamour vazio. O longa de estreia de Emmanuel Marre & Julie Lecoustre tão somente desnuda o olhar sobre essa (aero)moça, tão entediada e enfastiada, ou sem qualquer perspectiva diante do que seu trabalho tem a oferecer: nada mais que AMORES EXPRESSOS de Tinder e pessoas bêbadas nos voos.

Segundo os próprios diretores, o roteiro nasceu de uma imagem específica, o quadro de Edward Hopper, “New York Movie”, donde se vê uma sala de cinema quase vazia, ocupada com alguns espectadores e a lanterninha ao canto, perdida em seus pensamentos. Esse é o momento transposto à narrativa, a cena que abre RIEN À FOUTRE: Ali, Adèle está sonhadora, suprimindo sua vida ou qualquer sentimento que possa distraí-la para logo se concentrar no itinerário de bordo e no discurso de segurança – “por favor, a bagagem de mão no compartimento acima de sua poltrona” – , isso dito, não importa as circunstâncias, religiosamente em 30 segundos de sorriso no rosto, meio minuto donde não existe passado, nem futuro, somente esse presente e ela, a comissaria de bordo, diante dos passageiros absortos em seus umbigos. “Senhoras e senhores, minha colega oferecerá nossos produtos “duty free”. Temos uma vasta gama de produtos, diferentes perfumes e uma seleção de presentes. Nosso ‘Belle du Jour’ está com 20% de desconto”. E assim ad infinitum.

Tão logo é um drama de personagem, baixo orçamento, fragmentos de tempo, existência e não atores, donde vemos o lado íntimo de alguém lutando com seu lado público. E voa além, num plano de carreira dificílimo, regulado por restritas atitudes e oculto sob uniforme azul. É avassalador como esse grão humano de areia desliza para a turbina da grande aeronave. Embora hoje exista uma tendência de desmaterializar essa profissão, os comissários de bordo ainda têm um trabalho físico, presente e quase carnal. Então, um (falso) documentário sobre essas pessoas, todas muito jovens, vivendo em pequenas comunidades apátridas, em apartamentos compartilhados perto do aeroporto. Elas, constantemente fora de sincronia, donde semanas não existem mais, tão pouco lugares. É uma vida episódica, o filme idem: cenas de céu, orifícios, asfaltos, tudo intercambiável. Gente que visita três países por dia, mas não viajam. E isso personificado nessa atriz, que entrega uma carga dramática genuína, de um sorriso à uma lagrima em segundos, e sabe se impor em cena – tão desolada e desabitada – para logo em seguida – Ding! – furtivamente mudar a expressão e dizer com naturalidade: “Em caso de despressurização, máscaras de oxigênio cairão automaticamente do compartimento acima”. E é nesse momento, 30 segundos, que se percebe todo um o céu dentro da personagem.


“New York Movie”, de Edward Hopper (1939)

RATING: 70/100

TRAILER

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REVIEW · CANNES

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