La Civil

“Quando acordo de manhã. Eu quero matar ou morrer.”
Miriam Rodríguez, dona de casa


Não devia ser surpresa. Não depois de tantos filmes sobre o tema, essa convulsão social no México, teve o HELI de Amat Escalante, o NOVA ORDEM de Michel Franco, agora LA CIVIL de Teodora Mihai, e novamente (outra) história seca e cruel, um filme cada vez mais intolerável pela violência (psicológica) e o ritmo com o qual é filmado. É a essência da maldade, a realidade do medo, as regras do jogo, os tiroteios, as confissões, as decapitações… são os ingredientes de um cinema que gosta de se colocar à margem da sociedade – dos trabalhadores, dos ilegais, dos coitados – apenas pelo prazer de vê-los vender sua alma ao diabo. E tudo tão natural, tão simples. Não é pouco. Apenas insuportável.

Ao centro do inferno, a protagonista desmorona mais lenta e mais ordinária que qualquer um: é uma mãe em busca da filha, a jovem sequestrada pelo cartel. Tão logo, uma busca sem apoio da polícia, das autoridades, talvez do exército, torna-se uma busca solitária, justiceira. Uma história baseada em fatos reais, naturalmente, a câmera muito de perto, nunca perdendo essa mulher de vista e ela gradualmente se transformando de dona de casa em ativista vingativa. E à medida que a projeção avança, os acontecimentos se desenrolam, a verdade (ou a menina) cada vez mais perto (ou não), vemos a vala comum, toda a apatia, corrupção e burocracia que torna essa jornada infernal. Não há volta, nem rodeios, ou qualquer resolução. Somente esperança e ela é imprevisível.

O texto é de Habacuc Antonio de Rosario e o projeto levou sete anos para se produzir. Não é um filme fácil. Não pretende ser. As inspirações vagueiam entre os Dardennes, Michel Franco e Cristian Mungiu e não à toa eles coproduzem esse narco western. Há um flerte com o documentário também, essa obsessão sobre a atriz – Arcelia Ramirez – e um olhar muito próximo, para capturar o máximo de emoção. Tal estilo visual se soma ao suspense, em alguns pontos uma ação acelerada, em outros um filme lento, quase um exemplar da nouvelle vague romena. E é assim pelas escolhas criativas, porque todo o filme está sobre os ombros da protagonista e ela que lute para equilibrar as emoções. Há essa força primitiva da mãe, como a leoa mãe, que fará qualquer coisa para salvar sua filha. E o publico certamente responde, na torcida ou na angústia, cada passo dessa mulher em direção à filha, mesmo que seja somente um vislumbre, um respiro. O filme termina e você está atordoado, sem chão, mas não devia ser surpresa.

RATING: 75/100

TRAILER

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REVIEW · CANNES

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