A Última Floresta

Visitar as longínquas terras amazônicas, entrar na selva e filmar os índios e seus mistérios é um empreendimento de sonhadores. E loucos. E poucos. Pode se contar nos dedos as expedições cinematográficas, Werner Herzog (AGUIRRE, A CÓLERA DOS DEUSES e FITZCARRALDO), Marco Bechis (TERRA VERMELHA), James Gray (Z: A CIDADE PERDIDA), Ciro Guerra (O ABRAÇO DA SERPENTE), esses já foram bem longe. Contudo, Luiz Bolognesi vai além, indo até A ÚLTIMA FLORESTA e ali viver com os Yanomami, não uma fantasia, não uma ficção, mas um documentário-odisseia para manter vivos os espíritos da floresta, enquanto os garimpeiros se aproximam aos poucos com sua morte e destruição. O próprio diretor sendo um intruso-observador, um “homem branco” para encantar os “tainás” com sua câmera espelho e ali, ouvir histórias da aldeia. E desse retrato-santuário que filma, pouco mais de 60 minutos de cinema de fronteira, de índio confinado em reserva, de índio forçado ao neocolonial, vemos senão um povo antiquíssimo em sua exclusão inevitável.

Assim, o filme primeiro nos conta um tributo cativante de ritos e crenças, muita história de caçador, muita lenda de filhos de Omana e Yoasi, tal cinema se camuflando no mato com cheiro de urucum e terra molhada. Eles, vestidos de cerimonial, o corpo revestido de pigmentos e signos, seus braços pesados com penas de papagaio vermelho e cabelo coberto de penugens brancas. Ali, vão caçar japins, jabutis, jacarés. Ali, vão se banhar nas origens do mundo. Ali, vão viver seu apartheid. A constatação é de certo isolamento gradual, de um paraíso edificado na terra, pássaros cantando, verde da selva, verde do rio, verde de uma civilização, e esse povo pintado, seminu, com arco e flecha, vivendo em suspenso idílio. Bolognesi brinca com a luz e as sombras, faz um estudo antropológico, selvagem nos pequenos detalhes, e mergulha sua narrativa em pleno verde majestoso, ornado de muitos badulaques folclóricos para apaziguar o olhar. E ao longo desse discurso, vai gotejando um pouco de amargura, um, dois, três garimpeiros e depois outro e mais outro, essa fumaça capitalista que sempre ameaça a grande oca, a rebelião sem clamor que constantemente macula a terra em busca de minério.

Contextualizando: os Yanomami vivem em um território no norte do Brasil e sul da Venezuela há mais de mil anos. Quinhentos anos antes desses países existirem, eles já viviam lá. Seu contato com o mundo exterior remete somente às primeiras décadas do século XX e se intensificou nos anos 60, 70, isso com a febre do garimpo. Em 1986, a descoberta de jazidas de ouro nas terras yanomami causou a invasão de 54 mil garimpeiros e a morte de 1500 a 1800 indígenas. Em 1992, o governo brasileiro reconheceu legalmente essas terras como reserva indígena. Mesmo assim, no ano seguinte, garimpeiros invadiram uma aldeia e assassinaram a tiros e golpes de facão, cerca de 16 indígenas, entre idosos, mulheres e crianças. O episódio ficou conhecido como “Massacre de Haximu”. Depois disso, com a pressão da imprensa brasileira e apoio internacional, a lei foi cumprida desde então, isso por 25 anos. Em 2019, com a entrada de um novo presidente, mais de 20 mil garimpeiros voltaram a invadir o território, derrubando a floresta, envenenando os rios com mercúrio e trazendo COVID-19 para as aldeias. O governo se absteve completamente da invasão, noutra omissão genocida ao povo brasileiro.

Daí as motivações desse filme, o roteiro escrito pelo próprio xamã da aldeia, Davi Kopenawa Yanomami: “Os brancos não nos conhecem. Seus olhos nunca nos viram. Seus ouvidos não entendem nossas falas”. Então, A ÚLTIMA FLORESTA se torna, sobretudo, uma história política, um ato de resistência, um filme de choque cultural, feito por um ativista à beira da extinção. O último frame resume tudo: a lágrima de um índio isolado, sozinho em um quarto de hotel, no meio de uma imensa cidade de pedra. Não há muito o que se ver adiante. Apenas lamentar.

RATING: 71/100

TRAILER

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REVIEW · BERLIM

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