The Girl and the Spider

Em THE GIRL AND THE SPIDER, uma garota se muda, outra fica para trás: e durante o cortejo de se mudar, esse filme em si, os irmãos Zürcher ensaiam a agitação, o movimento, as rachaduras que se formam, as placas tectônicas dos relacionamentos cada vez mais fora de controle. Saudade e dor, transitoriedade e perda, sonhos e tristeza. A caligrafia (ou cacofonia) peculiar dos cineastas à serviço da ambiguidade das pessoas, e isso na visão precisa, na exploração dos abismos psíquicos, no humor fino e esses animais indo e vindo em cena, quebrando o rigor formal da dramatização. E de novo, como outrora nA GATINHA ESQUISITA – a natureza dos seres humanos e sua convivência, todos confinados no apartamento, ali como um bioma de cinema para as câmeras filmarem os pormenores, cada objeto descartado, cada mancha perceptível, os desejos suprimidos vindo à superfície.

Sim, é fato que tantas abstrações ameaçam sufocar a narrativa, tornando a história esparsa, efetivamente uma desconstrução de identidades – e não à toa as britadeiras para quebrar esse concreto social. Tais significados estilhaçam o filme, abrem infinitos mundos paralelos, centenas de ramificações e personagens únicos. Os cineastas, no entanto, colocam a câmera-microscópio sobre a menina que fica (sozinha?), ali no apartamento (vazio?), absorvendo a migração de sua antiga vida, os choques de realidade, o pensamento perdido ou apenas a aranha na parede. Ao seu redor, a casa explode, os objetos caem, os vidros quebram, ela própria se machuca – e continuamente.

E segue a projeção com caixas deslocadas, paredes pintadas e armários construídos, além de uma tensão incerta que corre por toda parte, enquanto o abismo se abre e os anseios inundam a sala (de groselha?). O cinema quase em catástrofe tragicômica, na toada de um conto de fadas realista, senão o retrato de um mundo frágil, que a qualquer momento pode se espatifar no chão. A partida da amiga afinal desencadeia um vai e vem de desejo de proximidade e dor de separação. E tais princípios de atração e distância permeiam todo o filme, em todos os personagens, em uma dinâmica que jamais descansa. Como a aranha do título, a protagonista tece sua teia, o filme tece personagens e histórias. Uma teia cada vez mais complexa em que os personagens respiram um anseio pela liberdade, pela falta de limites, mas também um lar frágil e temporário, do qual apenas um traço delicado permanece com o passar do tempo. O resultado é um exercício panóptico que demanda uma (re)visão cuidadosa, porque cada frame pode comandar ou iludir nossa atenção, já debilitada pelo uso contínuo do som e extracampo. Muita coisa acontece aqui, ame ou deixe.

RATING: 72/100

TRAILER

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REVIEW · BERLIM · FILMES LGBT

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