Moon, 66 Questions

Desse “cinema de meninas”, tão livre e aberto, jovem e natural, que recentemente nos trouxe WINONA e agora nos ilumina de sol, MOON, 66 QUESTIONS e a revelação dos astros: um filme sobre amor, movimento, fluxo (e a falta deles). Também uma colagem de recortes, a mesma passagem do tempo sentida em diferentes materiais e memórias vista nA METAMORFOSE DOS PÁSSAROS, embora aqui sem a mesma catarse (ou intensidade?), porque os gregos, sabemos, são os mestres na impessoalidade. Muita memorabilia, vídeos caseiros em VHS, um filme-ensaio feito de sonhos, desses que surgem do nada e se vão num sussurro, a escrita em si no feminino para esboçar um retrato, acompanhar o inconsciente, vivificar as zonas cinzentas e – principalmente – restaurar a fé nos laços entre um pai e sua filha, Páris e Artemis, fogo e lua, e isso depois de anos de distância.

Uma história que começa nebulosa, cheia de verborragia e cenas picotadas que você mal entende. A ideia, talvez, seja sugerir a agitação da protagonista ou a fonte óbvia de sua angústia – o pai, parece, sofre de esclerose múltipla. Portanto, há também o fato dela não o (re)conhecer mais ou sentir que perdeu a chance de conhecê-lo. E é aí que vêm continuamente as “perguntas” do título, bem como do diário expresso em cinema, esse sentimento de inquietação cujas respostas se apresentam em cartas de tarô, isso para delinear cada “episódio” na mesa, traçar um paralelo com as fases da lua ou apenas nos indagar continuamente: “Mas e agora? o que acontece?”.

E assim, 66 perguntas depois e antes do sol e da lua se convergirem para um abraço mútuo e carinhoso, vemos uma longa jornada, uma espécie de “coming of age”, mas não no sentido literal da garota adentrando a fase adulta. É mesmo sobre o amadurecimento desse olhar em relação ao pai, o homem que lhe acolheu na infância, que um dia tudo lhe proveu, mas agora se encontra ali, catatônico e envergonhado de si. O desempenho de Lazaros Georgakopoulos, aliás, é muito físico, vê-lo é um grande choque ao qual o filme orbita em descobertas de muitos (des)equilíbrios e (in)sanidades: e é por ele que as explosões de raiva e interpretação chegam, mas também a calmaria, a lua mingando até surgir nova, um segredo também. E eis, talvez, a resposta: o maior ato de amor dessa filha é descobrir a intimidade de seu próprio pai e o fazê-lo sentir-se aceito, mesmo que seja tarde demais. E é através do amor ao pai, que ela vai amar a si mesma e assim se tornar adulta. E desse amor todo, você pode até não amar plenamente, mas certo vai abraçar.

RATING: 66/100

TRAILER

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REVIEW · BERLIM · FILMES LGBT

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