Madalena

O filme naturalmente é sobre Madalena, a personagem trans que aparece somente uma vez, lá ao longe, uma única cena de um corpo quebrado estirado sem vida em um campo de soja. Não se sabe quem a matou, como ou porque, isso nunca é revelado, nem mesmo se aquele corpo é o dela. MADALENA começa e Madalena se foi. Não há mistério, nenhuma investigação. Ela está morta e a vida continua… então, é pela ausência da protagonista-título que Madiano Marcheti filma em contínuo suspense, três histórias, três lacunas e esse fenômeno que assola o Brasil, resultado de um longo contexto histórico e cultural e muito mais intenso agora nessa crise de empatia que se arrasta por anos em um ambiente toxico e divisório.

Por sua câmera, paira uma fantasmagoria temática, uma ausência assombrosa ampliada pela construção sonora e visual. Há momentos que vão pelo surreal, o paranormal, a sensação de estranheza que assopra os campos de soja, que instiga os animais a correr sobressaltados. E de fato percorrido por três personagens, cada um com sua historia e seu momento, indivíduos que partem de lugares sociais e espaciais diferentes, mas que se cruzam de alguma forma pelo limbo, seja uma estrada, uma boate, uma floresta, não importa, Madalena se foi.

O espaço (ou falta dele) é importante, não à toa a repetição de cenários sob ponto de vistas diferentes, não só dos personagens, mas dos animais, da plantação, dos drones, dos tratores, do espiritual… é como se o roteiro quisesse mostrar a progressão do lugar, uma linha tênue sobre as fases do luto, primeiro a negação, segundo o medo, por fim a aceitação. E cada história com seu protagonista e suas especificidades e vontades e desejos e questões e, com isso, a construção do próprio lugar, enquanto cidade ou mesmo a comoção diante de assistir uma morte, no caso a morte de uma pessoa trans.

Apatia? Desespero? Tributo? Madiano filma o desapegar com naturalidade, sem querer naturalizar a morte, mas lhe encarando de frente, como um dado estatístico natural. Seu filme segue sempre em frente, sem dramas, sem tristeza. Um filme de elipses, narrativa rarefeita, memórias e visões, donde o diretor estilhaça a narrativa, abandona a linearidade e a progressão normal do enredo para misturar nossa consciência com imagens e fatos, pequenas migalhas de Madalena para por fim nos despedir dessa pessoa que ninguém viu, mas existiu, foi alguém, e alguém sente sua falta.

(*) Crônica livremente inspirada da entrevista com o diretor, em Rotterdam
RATING: 73/100

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REVIEW · FILMES LGBT · ROTTERDAM

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