Coda

Se ao final de CODA, você estiver chorando, saiba que não está sozinho: o mérito talvez seja da diretora, Sian Heder, a mesma que nos comoveu em 2016 com TALLULAH, aquele drama açucarado sobre uma jovem nômade que se torna a cuidadora improvável de uma criança. Pode ser também pela história, uma adaptação do queridinho francês A FAMÍLIA BÉLIER, o mesmo conto de uma adolescente, a única capaz de ouvir em sua família de surdos. Ou então, pelo elenco extraordinário, não sei dizer ao certo. Fato é que o filme começa comum, como tantos outros, um cinema de verão, bem leve, um conto de família donde uma jovem trabalha num barco de pesca e depois vai ao colégio, nada demais. A riqueza está (ou vai surgindo) das escolhas morais, o dilema dessa menina – a ótima Emília Jones – entre seguir pela lealdade aos seus entes queridos ou perseguir sua própria paixão pela música.

Daí, dessa estranheza de certo apelo universal, vem muita comédia, muitos momentos de ternura, e logo começando a ficar mais e mais envolvente, até transcendendo o filme original de Eric Lartigau, isso porque, na esperança de manter o que amava sobre a premissa, Heder incluiu cenas, trabalhou outras, personalizou sua narrativa com a própria história. A começar em situá-lo na comunidade costeira de Gloucester, Massachusetts, donde viveu sua própria infância. E é lá que a família passa muitas horas trabalhando no barco. O pai é um pescador de longa data com planos de passar seus negócios para os filhos e, embora trabalhem duro, o dinheiro é sempre apertado. Eles vivem juntos em uma casa encantadora, um pouco dilapidada e, no entanto, o que falta em conforto material, eles preenchem de afeto genuíno. A mãe é uma ex-modelo que ganhou concursos de Miss, no filme interpretada por Marlee Matlin, a oscarizada atriz de FILHOS DO SILÊNCIO e, junto à Troy Kotsur, eles vivem um casal amoroso, meio pateta, uma delícia. Sua relação com os filhos é muito confortável e relaxada. O irmão é um fofo, o típico irmão mais velho que é rápido em provocar a irmã, embora se sinta constrangido pela circunstância. Ele gostaria de mais independência, de assumir mais reponsabilidades com a família, mas pela própria limitação não encontrou oportunidade de se apresentar, sempre ficando para escanteio.

E quando você vê, a historia já lhe abraçou completamente. Em meio à paisagem um pouco neutra do filme, pontuam cores pops – azuis, vermelhos, amarelos, laranjas. Os filhos usam uniformes amarelos e laranjas. Todas as linhas de gravata são de cores brilhantes e há essas grandes caixas azuis de plástico em todos os lugares. É um filme que lhe rejuvenesce, muito agradável, então você o abraça de volta, enquanto na escola, a paixão floresce, o hit “You’re All I Need to Get By”, de Marvin Gaye, se tornando um caso de amor adolescente. E assim, a projeção vai se preenchendo de canto e música, nos energizando para o terço final que é espetacular, cena atrás de cena nos arrebatando. O elenco, a química entre eles, a jovem, o irmão, a mãe e o pai nos arrancando cada sorriso e lágrima possível, cada um com uma cena para brilhar (e serão muitas) até culminar nesse grande abraço que é simplesmente lindo. E, sim, eu também chorei, é inevitável.

RATING: 76/100

TRAILER

EM BREVE

Article Categories:
REVIEW · SUNDANCE

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.