Ammonite

AMMONITE é o retrato de uma senhora na pedra, é Kate Winslet encruada na vida, seca e frigida a vagar pela praia em busca de conchas perdidas. E como os fósseis que tanto procura, ela própria no barro das raízes profundas que a chuva trouxe e as ondas levarão, ela vai resistindo na busca ressentida, regredindo ao estado mais bruto e todos os dias, dias frios, dias melancólicos, sendo um fóssil sem coração, a mulher petrificada pelo trabalho, o sustento, a mãe e seus bibelôs de porcelana, logo uma pedra solta em extinção. Sozinha. Solitária. Ninguém repara nela e ela sobrevive rolando os dias em seu mundinho concha. O trabalho de Francis Lee, cineasta, então, é lapidar essa personagem em filme, mas não no fogo do RETRATO DE UMA JOVEM EM CHAMAS, que Céline Sciamma filmou e muitos aqui comparam, porque o espectro é completamente outro e o entalhe é mais preciso.

Talvez o melhor termo de comparação seja o filme anterior do diretor – REINO DE DEUS -, aqui a mesma saga de sobrevivência e trabalho, protagonistas embrutecidos, pobres e sem perspectiva que, inesperadamente, se encontram num relacionamento e não sabem lidar com ele, outrora um jovem fazendeiro, agora uma paleontóloga de meia idade, ambos se vêem diante do abismo. São, portanto, os mesmos filmes em gêneros opostos, histórias de amor sincero que capturam os sentimentos de ansiedade e alegria de algo novo. Filmes donde os personagens estão na encruzilhada de ser aberto e vulnerável o suficiente para amar e ser amado. Daí a lenta e gélida construção da personagem de Kate, tão esquecida e ignorada por toda a sua vida por causa do gênero e classe social. E dado este mundo, donde qualquer sinal de afeto é sublimado pelo senso de dever, Mary Anning seria capaz de acessar o que ela realmente sente? Ela seria capaz de baixar a guarda para permitir a possibilidade de algo novo e maravilhoso entrar em sua vida?

A resposta é sim e o trabalho é extremamente sutil, quase imperceptível: começa por pequenos gestos, a mão no cabelo, o alisar de um vestido, um rabisco na caderneta… repare que o filme (e o sentimento ali contido) está todo nas mãos, ora desajeitadas, ora habilidosas, fazendo sopa, pegando carvão, limpando pratos, colando conchas, amarrando o espartilho ou se perfumando. E é nesse ponto do perfume que você nota o quanto a interpretação de Kate é extraordinária, ali seu olhar ganha vida – olhos de ressaca, diria Machado de Assis -, eles brilham e depois se arrependem, como se fosse proibido tal prazer. A projeção, então, se encaminha para um flerte de saber/não saber o que fazer com as mãos e os olhares. Isso fica evidente na cena da festa, os olhos de uma jovem em chamas, as pupilas freneticamente em movimento como se o cérebro (em pânico?) estivesse em mil pensamentos enquanto a música nos sufoca. A cena seguinte, a do poema, é quase uma rima visual de outra de VESTIGIOS DO DIA entre Anthony Hopkins e Emma Thompson: Kate está segurando firmemente o diário como se todos os seus segredos mais profundos estivessem ali escritos, então Saoirse Ronan lhe toma o livro e o lê, a câmera naturalmente fica em Kate, em seu olhar cabisbaixo só para captar um repentino faiscar, e lentamente desce ao nível das mãos, as mãos bem cuidadas de Saoirse sobre as calejadas de Kate.

A dissimulação do olhar e das mãos é um aspecto importante do filme, mas não o único: a metáfora do fóssil de Ictiossauro que abre a projeção, surge vez ou outra para lembrar o quão a protagonista se sente inferior aos outros, como se ela não merecesse todo o respeito/amor alheio ou não fosse digna de tal reconhecimento. “É muito grande. Impossível de mover. Valia um ano de comida, aluguel e roupas”. Vários personagens a procuram além de Saiorse, interesse romântico inclusive, mas ela sempre está em fuga, se esquivando, abdicando ou buscando seus pequenos amonites. Saiorse é a única personagem capaz de lascar essa couraça e, mesmo assim, com dificuldades, como se vê no final.

RATING: 77/100

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REVIEW · CANNES · TIFF · MIX BRASIL

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