Josep

JOSEP começa e é como se o tempo estivesse parado. Cada frame é desenho e o desenho transita com o mínimo de esforço para fazer saltar aos olhos do espectador, sem palavras, sem demora, uma canção de protesto, uma canção de ninar. E na presença de um menino que tem que cuidar de seu avô, do retrato de um espanhol caído em suas muletas, meio homem, meio cadáver, vemos dois homens se espelharem, fora da tela, cartunistas – Josep e Aurel -, dentro dela, “gallo rojo, gallo negro”, ali separados por arame farpado. Então, um filme de desenhos, o desenho como arma, o desenho como um choro, e esse grito que nos permite experimentar o mundo como ele é, como ele já foi, sem se deixar enganar pelo que há de errado nele. Um grito de esperança de querer melhorar. Um grito universal que, para Josep, para Aurel, para nós, passa por uma folha e um lápis. E o cinema em chamas.

Nos estremece ao ver isso, esse desenho com caneta, lápis ou caneta hidrográfica, ou mesmo a ausência de linhas, as ilustrações políticas ricas em detalhes e significados, críticas ao poder, ao estado, à religião, à covardia dos líderes internacionais. E então os esboços dos campos de concentração para conter os irmãos socialistas, anarquistas, homossexuais, maçons e liberais catalães. A força de um traço de lápis para testemunhar esta sequência dramática, vergonhosa e pouco conhecida da história do século XX.

Aurel tão somente desenha os rabiscos, um movimento, um som, uma música, uma respiração, um ritmo e voilá: a história de Josep, o exilio na França, o asilo no México, o final em Nova York… cada etapa, mudando também o traçado de seu filme, tanto a linha como a cor, como se cada desenho nos mergulhasse implicitamente ao espírito de cada época pelo filtro do seu lápis. Assim, começa num traçado muito simples, ali nos acampamentos, quase sem nada de cor, e posteriormente a explosão de matizes no México para abraçar Frida Kahlo e, logo mais, o filme se libertando, sem linhas, sem contornos, mantendo apenas as massas e as cores… as poucas coisas que o artista deve ter notado ao perder a visão.

E eis o arrebatamento: Josep sobrevive nos campos porque desenha (“Ele teria enlouquecido se tivesse ficado prostrado sem fazer nada e jogando cartas”). E porque ele desenha, e seus desenhos são testemunhos, ele provavelmente também sobrevive para que esse testemunho não desapareça com ele. Esse desenho que sobreviveu em um acampamento poderia ser suficiente por si só. Mas ele passa por mãos, como um eco, um elo entre este passado e nosso presente, uma transferência. E é por isso que a história começa com um jovem adolescente de hoje, bem ancorado em sua vida cotidiana, que tem um belo traço de lápis, mas sem consciência social, sem olhar para o mundo ao seu redor. O vínculo que o unirá a Josep será duplo: há o desenho, claro, mas sobretudo o avô. O próprio avô que conheceu Josep, o avô que era gendarme na época e que guardava o acampamento. Apesar da gagueira da memória do velho, o adolescente descobre este avô, de quem nada sabia, enquanto descobrimos o artista em si. E tudo se encaminhando para Nova Iorque, com o adolescente crescido e para quem a história do velho abriu os olhos para o mundo. Então, deslumbrados, vemos que o tema do filme sempre foi o desenho. Josep tão pouco foi sua encarnação: Um homem que entre o rifle e o lápis fez sua escolha. E viveu para desenhar.

RATING: 79/100

TRAILER

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ANIMAMUNDI · REVIEW · CANNES · MOSTRA SP

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