Candango: Memórias do Festival

De tantas histórias, histórias de um Brasil emoldurado, histórias dos anos de chumbo, histórias de redemocratização de um país, Lino Meireles foi ao centro de tudo, nos porões do Festival de Brasília para ali sacudir a poeira dos latões de filme, e ele próprio nos contar sua historia e a historia do cinema brasileiro. E aos olhos de CANDANGO, esse troféu de cinquenta e poucos anos, tal qual um menino diante da fogueira, do cinéfilo diante de sua tela, de Truffaut diante de Hitchcock, ele vai coletando esses contos de saudade, de memória, do mais icônico personagem… seu filme, um crochê de dengos, reminiscências de tanta gente que ele filma muito Eduardo Coutinho, nesse JOGO DE CENA donde os participantes mergulham na memória para construir uma peça – muita única – que nos arrebata de nostalgia, curiosidade e interesse, e não só pelo que nos conta, mas pelos filmes em si que vão surgindo e fizeram sua própria história.

Então, se você adora cinema – cinema brasileiro, vale dizer -, essa é uma exibição obrigatória. Porque tal documentário reconstitui a essência de um Festival – o mais antigo do Brasil -, isso feito na “colagem antropofágica” de encontros e longas conversas das quais teria nascido outrora um livro, mas agora um filme de imagens e multidões, heróis e película, e todo o rock´n´roll passional dos bastidores, quarenta horas de material de arquivo, outras sessenta de entrevistas preciosas, sobretudo trechos dos filmes. Cada cena comentada pelos diretores que o fizeram, também os atores, os produtores, quase numa procissão de causos de mesa de bar, o zum-zum-zum da festa, os desaforos da famosa piscina do Hotel Nacional e daí as críticas e os críticos e de novo os filmes, as estrelas, os corpos, as personalidades e essa extensa atividade cinematográfica e política.

Veja o filme, por favor, é uma daquelas experiências que melhora a vida e apura o sentido do cinema, desde que você goste, basta abraçar. E enquanto isso, corra para assistir aos candangos, o tapete vermelho que se estende aos nossos clássicos, O BANDIDO DA LUZ VERMELHA, BICHO DE SETE CABEÇAS, A HORA DA ESTRELA, LAVOURA ARCAICA, IRACEMA, ALMA CORSÁRIA, XICA DA SILVA e tantos títulos, uma obra-prima após a outra, numa sequência estonteante de entra-e-sai de entrevistados e graças às imagens e aos filmes, nos truques incríveis de montagem, vemos a história passar, o tempo idem, o cinema com seus efeitos dramáticos e o público ali, deleitado, não pelo documento, nem pelas memorias revistas ou um ensaio sobre os barracões do cinema, mas pela paixão com que esses homens e mulheres amam essa arte e a celebram além da profissão, dos tempos e dos (des)governos de cada época.

RATING: 70/100

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