Sibéria

SIBÉRIA para iniciantes: Um filme sem legenda de Abel Ferrara que mira em SONHOS de Akira Kurosawa, mas acerta num pesadelo de David Lynch, isso num cenário de Sergey Loznitsa, com personagens de Ulrich Seidl e fotografia de Terrence Malick. Uma experiencia niilista donde metade do público abandona a sala, metade dorme e a outra metade não entende nada e se a conta não bate, imagina nossos neurônios diante dessa obra, o cérebro tentando acompanhar o descompasso, o surrealismo visceral, tanta loucura e delírio. E nessa bad vibe, no heavy metal insano, no expressionismo (do cinema) mudo, mesmo o sextape de Willem Dafoe (ou as cenas eróticas dele com a vovó do Titanic, uma gestante e dançarinas gordinhas), o público se entreolha pasmo, surpreso. O que será isso? O que Abel fumou? Seria um surto? Um bacanal? Buraco de minhoca? O último círculo do inferno de Dante Alighieri? Não sei… Só sei que o final à la “BRUXA DE BLAIR” valeu o ataque de urso (de Berlim à Sibéria). Pena que ninguém entendeu…

Então, aceite: SIBÉRIA é um salto sem rede, uma jornada alucinógena ao mais profundo submundo da mente, um pot-pourri de cenas malucas que nos soam estranhas, nem urbanas, nem modernas, apenas um lugar bizarro, o chamado selvagem de um mundo típico de Jack London, com suas matilhas e desertos brancos, certos encontros que acontecem, certas paradas ao longo da marcha em algum tempo ou dimensão diferente.

O roteiro completamente de improviso, Willem Dafoe a esmo na neve, o público perdido diante da tempestade, catando as migalhas de história (que história?), as imagens aqui, visões acolá, toda a memória do mundo em um frame aleatório como oportunidade de desafiar o pensamento, criando uma experiência única que, com sorte, aos que sobrarem desse evento catártico, se torna vital o suficiente e transparente o suficiente para se perder pela noite estrelada, os quartos vazios, a balada infernal, esse coito cinematográfico que alucina. Sem dúvida, um filme difícil de explicar, mas sempre interessante de se ver (ou sentir?) e fundamentalmente um cinema na veia, sem desvios, sem concessões, o público que lute, que encontre os significados, ame ou odeie, enquanto Abel nos guia mais e mais fundo na escuridão, ao deserto, pela morte e a ressurreição, uma dimensão subconsciente ou a penumbra da psique humana. Estejam avisados, não haverá volta!

RATING: 74/100

TRAILER

Article Categories:
REVIEW · BERLIM · MOSTRA SP

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.