Mães de Verdade

Ao ver as MÃES DE VERDADE, em algum lugar, não sei dizer ao certo se é diante do mar calmo, a gaivota no céu ou das flores de cerejeira, algo de repente desperta: Eu quero um colo, um berço, um braço quente, uma voz que cante baixinho e me faça parar de chorar, mas Naomi Kawase em seu filme, ou Mizuki Tsujimura em seu conto original, tão somente nos lê uma carta e sussurra: “meu bebê”. E nesse ponto, eu querendo todo o aconchego do mundo, um extravio morno de minha consciência ou um sonho tranquilo, aqui solitário me deparo com Satoko e Hikari e essa luz inesgotável com a qual a cineasta filma. Seria meu coração a luzir? Seria o cinema a cintilar? A música lá no alto como a gaivota que abre a projeção, os letreiros subindo, minhas lágrimas caindo e Kawase ali… filmando o feminino na sua forma mais primitiva com laços de sangue e laços de alma, não à toa o cordão umbilical que permeia toda a sua filmografia.

Na terra, o telefone toca: “Eu quero meu filho de volta”, era isso que a mulher no telefone diz. E é desse plot twist que nasce um pequeno drama, tão minimalista como os japoneses sabem fazer: a história de duas mulheres – Satoko e Hikari – unidas por uma adoção, uma delas, resignada a um futuro sem filhos por conta da infertilidade do marido, a outra, gravida inesperadamente, amando esse filho a nascer, mas sem condições de criá-lo. Então, o filme prepara o berço para nos embalar: primeiro a história do casal, o filho já crescido, um incidente no parquinho, o tal telefonema e a revelação: o garoto é adotado. Depois, o conto da “mãe de verdade”, a menina que se apaixona, que ama (numa das mais belas cenas de sexo já filmadas) e logo se perde, não antes de entregar o bebê e a carta.

E o filme nos conta essas histórias, cada personagem em sua própria luta, medo e esperança, isso bem devagar, bem minimalista, ora no melodrama, ora no social, deixando pistas aqui e acolá para a derradeira catarse, a reunião dessas mulheres, a natureza como testemunha, as emoções em detalhes… é um drama comovente, embora a carga emocional só pese realmente no final quando aborda o que é uma família e, finalmente, nos leve à luz, como se depois da chuva uma luz radiante purificasse o mundo. Todo mundo é filho de alguém; todo mundo tem uma mãe que deu à luz. E, a este respeito, Kawase toca o coração das pessoas. Pois aí está o início do mundo, visto por uma alma pura que acredita que este mundo é genuinamente belo.

(*) Crônica livremente inspirada do material cedido pela Playtime. Contém uma frase do Livro do Desassossego por Bernardo Soares, de Fernando Pessoa
RATING: 72/100

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REVIEW · CANNES · TIFF · SAN SEBASTIAN · MOSTRA SP

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