Nomadland

No espírito nômade em busca de trabalho sazonal, Chloé Zhao filma um road movie americano para os nossos tempos: um panorama da grandeza do oeste americano, desde as Badlands da Dakota do Sul até o deserto de Nevada, ao noroeste do Pacífico, e isso através dos olhos de Frances McDormand, a mulher que perdeu o marido e, na verdade, toda a sua vida anterior porque a cidade donde vivia se dissolveu. E nesse processo, enquanto ela ganha força colando os cacos da vida, vemos a estrada adiante, os trailers indo e vindo, cidades subindo e caindo, civilizações inteiras surgindo e desaparecendo, ao passo que a terra permanece, a beleza de partir o coração donde não há corações para partir. Rocha e Sol e nada mais… e por tal panorama, nômades vieram e se foram enquanto a cineasta viajava e filmava – muitos protegendo as rochas de suas andanças, suas casas sobre rodas movidas a energia solar. E com eles, todas as histórias e sabedoria dessa comunidade, na frente e atrás das câmeras, com o devido tempo, espaço e respeito.

Um filme que se revela na selva, nas rochas, nas árvores e estrelas, um furacão donde a protagonista encontra sua independência e nós – o público – vamos desvendando essa pequena América do Século 21, nos apaixonando pela estrada, por essa liberdade, DOMANDO O DESTINO, e não como os cowboys e western de outrora, mas com essa personagem mais velha, aos 63 anos, toda nude lá na periferia da sociedade, nas plantações de beterraba, no refeitório de atrações turísticas ou como anfitriã de acampamentos. Uma trabalhadora comum, vivendo sua história comum de desafios físicos e desconforto, mas também de alegria e propósito. Ao redor, os próprios nômades vivendo e trabalhando suas vidas. Também David Strathairn, vale lembrar.

Então, na Ford Econoline que a protagonista chama de Vanguard, se dirige todo um roteiro improvisado, rabiscado e reescrito, isso feito diariamente conforme as curvas da estrada, quase 6 meses de filmagens pelo asfalto e deserto, a equipe toda em velhas vans, juntos, ali, como um cinema mambembe, a câmera no semi-improviso, como um caçador espreitando sua caça, sem saber ao certo o que encontrar. O resultado é incrivelmente autêntico, abrindo-se aos diferentes anseios e estímulos que experimentamos na jornada, as mudanças de luz, a natureza selvagem e humana, vivendo verdadeiramente entre esses cacos de pessoas – e se emocionando pelo “sonho americano”. Tem poesia nisso.

(*) Crônica livremente inspirada do material cedido pela Searchlight Pictures, incluso notas de produção
RATING: 87/100

TRAILER

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REVIEW · TIFF · VENEZA

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