Never Gonna Snow Again

Em NEVER GONNA SNOW AGAIN, Malgorzata Szumowska & Michal Englert (re)escrevem o TEOREMA de Pasolini em polonês. Os mesmos dogmas, a mesma parábola organizada com precisão matemática, aqui desconstruída em kitsch e Kieślowski, humor e ironia. Do filme de 68, sai o colapso de uma família milanesa de classe média, o sexo-tabu, os encantos de Terence Stamp; do filme de agora, entra um condomínio burguês do leste europeu, a massagem tântrica, a ambiguidade de Alec Utgof. Ambos os “teoremas” fluindo como uma experiência transcendental às voltas com seu visitante-Deus, qualquer Deus, que do nada surge, pouco diz, e do nada se vai deixando ao público, a mensagem, o silêncio, o estranho.

Como outrora, tal filme começa de forma alienante: pela noite, uma pessoa misteriosa aparece – um homem carregando sua maca. O massagista, então, caminha aos subúrbios. Um lugar sem graça, construído para os ricos sobre um velho campo de repolhos. Ali, as casas são idênticas, habitadas (ou assombradas?) por uma série de estereótipos de classe, o tipo de gente que aspiramos. E cada um sofrendo de tristeza, de saudade, um vazio profundo. Talvez pelo inverno que nunca começa, talvez pela crise radical do óbvio, do doméstico. O homem, um jovem atraente do Oriente, adentra em suas vidas. Ele tem um dom. Suas mãos curam, seus olhos penetram nas almas das mulheres solitárias. Para eles, o sotaque russo soa como a música do passado, uma melodia pacífica da infância, um lugar seguro.

Curioso como toda essa história se passa em um espaço e tempo não especificado, as estações e idades indefinidas. Os vizinhos nesse estado de letargia, para aludir um contexto social desumanizado. O viver, neste final apocalíptico, donde o protagonista é o mensageiro impiedoso, a presença misteriosa para massagear a hipocrisia dos mortais e lhes tirar de sua falsa segurança. É o Deus que destrói a boa consciência, em cuja casinha vivem os que pensam, ou melhor, vegetam numa falsa ideia de si. Personagens tentando medir, rotular, pesar e planejar vidas perfeitas, vivendo em seus condomínios fechados exclusivos, buscando uma massagem relaxante, um corpo perfeito, lá longe o coronavírus, Chernoby ou o capitalismo, aqui suplicando para serem tocados, mas pelo quê? Porque todo o mundo moderno já lhes foi apresentado e consumido. Não! eles não podem ser tocados. Eles são metafísicos, uma espécie de força maior. Isso revela um certo vazio espiritual e é por isso que o lugar onde eles “são transportados” com tanta boa vontade é apenas isso – um espaço vazio e virtual.

Então, a neve do título… tal fenômeno é um momento catártico para os personagens, uma esperança de algo novo, embora tal mundo não exista – não existirá mais. Nesse inferno NUNCA VAI NEVAR DE NOVO e isso lhes continua indiferente porque neste “mundo” donde o inverno degela, que assume as tonalidades do seu fim, esse não importa porque não lhes é o umbigo, o ponto central. Então, massageie, Zenia, massageie… e a tese de Pasolini se comprova novamente.

(*) Crônica livremente inspirada do material cedido pela The Match Factory, incluso a entrevista com os diretores
RATING: N/T

TRAILER

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VENEZA · PREVIEW

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