Pieces of a Woman

O luto como um exercício de estilo. Com PIECES OF WOMAN, o húngaro Kornél Mundruczó (e sua esposa, a roteirista Kata Weber) se desviam da Europa, de uma filmografia que se distingue por unir distopia à denúncia política, a fantasia com urgência social e visam decididamente uma análise existencial plácida e profunda, que parte das banalidades do quotidiano familiar para chegar a uma situação de extrema angústia, isso nos EUA, no “universal” inglês. Em casa, os mesmos personagens sob pressão, uma ambiciosa cena de 30 minutos, em (falso) plano sequência, feita em única tomada, em tempo real e de livre improviso: Martha (Vanessa Kirby) está tendo um bebê, então vamos ao parto, a euforia pela chegada iminente dessa criança, a preocupação quando a parteira que esperavam não chega, a dor do próprio nascimento e o medo abjeto à medida que a mãe fica cada vez mais apavorada com o bem-estar do bebê. A câmera portátil (no caos de um Gimbal) segue o conflito de perto, quase um personagem espiritual, talvez o espírito da recém-nascida a vagar em cena, esperando e esperando e depois indo.

Quando a tragédia se faz, a maturidade de Mundruczó na direção é evidente: segue-se o abraço comum no desespero, a terrível solidão interior no momento de fechar o caixão, a impossibilidade de encontrar o corriqueiro na dor de uma família, antes geralmente unida, agora em frangalhos, isso representado com lucidez sóbria e tocante. Há o verme da revisitação e do remorso, o nervosismo profundo do pai (Shia LaBeouf), o grito íntimo e excruciante da mãe, toda a fadiga sufocada. A Martha que emerge dessa experiência não é a mesma mulher de antes – sim, ela está cercada de parentes e amigos bem-intencionados -, mas sua psique está quebrada, essa mãe (como o título diz) está em pedaços, então o cineasta constrói o resto do filme literalmente em fragmentos. Uma cena no supermercado, outra sobre autópsia. Quatro semanas depois, e o bebê é doado à ciência, com objeções da avó. Também vemos o casamento se distanciar. Ela não tem capacidade de reconhecer sua dor, ele não consegue entender como ela internaliza sua própria dor. E cada vez mais longe, um do outro, vemos um diário visual, instantâneos da vida dessa mulher em constante elegia do sofrimento, em continua vigília secular.

Dadas as performances tão vividas e naturais, o aspecto é de uma não-ficção, embora em referências artísticas, os enquadramentos, as cores, a fotografia flertem com pinturas de Balthus ou Lucian Freud. Há certo suspense nessa trama, o máximo de sigilo e o máximo de silêncio, talvez uma conexão com o perdido, o invisível… há muitos frames para captar o silêncio da protagonista e estabelecer essa conexão. Nenhuma palavra, muitos olhares, toda a desesperança do mundo. A imagem não desgruda da cabeça. O público entende e não entende o que acontece, apenas testemunha, presos e melancólicos à essa mulher, como um quadro perdido. E nesse estado de (pseudo) graça, Mundruczó acrescenta um novo elemento à sua “poética cinematográfica”: o sentimento. Sim, é um filme que nos pega de surpresa.

(*) Crônica livremente inspirada do material cedido pela Bron Studios, incluso notas de produção
RATING: N/T

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TIFF · VENEZA · PREVIEW

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