DAU. Natasha


Dentro dessa épica utopia cinematográfica que é (se tornou) o projeto DAU de Ilya Khrzhanovskiy – uma titânica simulação em larga escala do repressivo regime stalinista -, o episódio de DAU. NATASHA se passa na cantina, em torno de cientistas bêbados, conversa de bar e conjectura de experimentos secretos. Um filme exasperadamente real, com ressacas reais, sexo real (ou seria lenda?) e um fascinante delírio visual que espia os (mais profundos) abismos da psique humana. E nesse tour de force, o público envolto em complexa discussão quântica, logo a projeção vai nos enredando pelo mais bizarro, o normal e o anormal, o banal e o grotesco, o humano e o desumano e, com eles, as garçonetes – as frustradas Olga e Natasha –, todos embriagados com os restos, a comida farta, a bebida barata, o banho gelado, o ambiente sombrio, para em sua finitude, nos colocar nesse interrogatório (moral?), no mais cruel exercício de sadismo, que seria cinema, mas se torna um experimento de medo, de raiva, de loucura. Um fragmento perdido em uma máquina do tempo.

E ao centro, Natasha, a história de uma mulher qualquer, alta e resoluta, difícil de se aproximar, mas que nos atrai pelas camadas de desejo, desespero e força escondidas em sua casca áspera, a pele alva, o vestido rasgado. O orgulho, idem. E que logo explode em cena, de forma inesperada, em uma reviravolta importante e nos engole, nos fascina, tal qual uma Supernova em instinto de sobrevivência, o ofício de servir, interpretar e improvisar. Tal trabalho, por mais penoso que seja de encarar, não pode ser subestimado. E Natasha o faz de cabeça erguida, às vezes assustadora, às vezes dolorosa, sempre de forma inquebrável. E ao fazê-lo, nos confunde, recria o passado em torno da ficção. Exatamente como se fazia (ou fizeram) antigamente.

(*) Crônica livremente inspirada do material cedido pela CoProduction Office, incluso entrevistas com os diretores
RATING: 76/100

SOBRE O PROJETO DAU

Bem vindos à Sinédoque, Moscou: THE DAU PROJECT é uma quimera cinematográfica, em princípio um único filme, mas logo se tornando um projeto único, épico, multidisciplinar e em constante mudança, idealizado pelo cineasta russo Ilya Khrzhanovskiy, construído nas instalações de uma piscina abandonada em Kharkiv (Ucrânia) e, então, num complexo experimento, um BOYHOOD stalinista que combina cinema, ciência, performance, espiritualidade, arte e sociedade.

Curiosamente, o tal instituto sobre o qual esse “Show de Truman” se trata, existiu duas vezes. Primeiro, de 1938 a 1968, como o ultrassecreto Instituto de Pesquisa em Física e Tecnologia do antigo regime soviético e agora, uma segunda vez, como o maior cenário já construído (e destruído) na Europa para um filme. Portanto, aqui se filma um reality show que englobou, entre 2009 e 2011, centenas de não atores, pessoas e personagens confinados em mais de 700 horas de material bruto filmado e donde os participantes ali viveram como exatamente seus antepassados comunistas o fizeram, os mesmos uniformes, as mesmas funções. O modus operandi recriado em detalhes e, de volta ao passado, reconstituindo, revivendo, reportando esse universo espacial e temporal paralelo: uma simulação histórica meticulosa em que tudo, dos vestuários aos utensílios de cozinha, toda a comida, o dinheiro, o vocabulário, combinava com os objetos e hábitos da época.

Assim, nessa megalomania se retrata as histórias, os cientistas de outrora envoltos em suas pesquisas e teorias, guerra e caos, cada grupo se odiando mutuamente. E todos se espionando no microcosmo, imersos no “disse-me-disse” totalitário, nesse sistema heliostático austríaco dos anos 30, a luz dosada em um clima halógeno, oculto, claustrofóbico, cada cena filmada em sua própria continuidade, muito improviso, apenas duas câmeras portáteis para não atrapalhar a mise en scène, as experiências variando pelo psicológico, o intelectual e o fisiológico, indo aos limites, à exaustão. O público, idem. E é fascinante.

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REVIEW · BERLIM

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