DAU. Degeneration


Dentro dessa épica utopia cinematográfica que é (se tornou) o projeto DAU de Ilya Khrzhanovskiy – uma titânica simulação em larga escala do repressivo regime stalinista -, o episódio de DAU. DEGENERATION é o fim. Um filme exasperadamente real, donde a vodca e o esperma fluem livremente em névoa visionária, bem como os limites da compreensão intelectual e da ação humana, tudo em função da criação de um “novo ser humano”, um “novo cinema-provocação”, e isso até o seu limite nauseante, o fim sangrento, degenerado, explosivo, incluso o surgimento de um esquadrão nacionalista e reacionário de jovens que estão prontos para limpar tal “chiqueiro”.

Então, uma extenuante saga (ou metanarrativa?) sobre a mudança de poderes, uma catástrofe social urgente e a consequente destruição do mundo. Desse mundo. Um fragmento perdido em uma máquina do tempo que expõe duas extremidades de um espectro: um rabino discutindo ciência e religião com físicos quânticos e um grupo radical de militantes da extrema direita aterrorizando esses cientistas com atos carnavalescos brutais. E isso permeado com todas as cores e grupos sociais intermediários: oficiais da KGB, xamãs da Sibéria, caciques da Amazônia, marginais pervertidos e curiosos do ocultismo – todos têm sua parte nesse trabalho cinematográfico sobre o secreto Instituto Soviético, todos estão interconectados em sua vida comunitária, caindo aos poucos. Para o fim. Uma lenta decomposição que caminha naturalmente sob um cruel exercício de sadismo, que seria cinema, mas se torna um experimento de medo, de raiva, de loucura. 355 minutos de Sodoma e porcos, diria Pasolini.

(*) Crônica livremente inspirada do material cedido pela CoProduction Office, incluso entrevistas com os diretores
RATING: 81/100

SOBRE O PROJETO DAU

Bem vindos à Sinédoque, Moscou: THE DAU PROJECT é uma quimera cinematográfica, em princípio um único filme, mas logo se tornando um projeto único, épico, multidisciplinar e em constante mudança, idealizado pelo cineasta russo Ilya Khrzhanovskiy, construído nas instalações de uma piscina abandonada em Kharkiv (Ucrânia) e, então, num complexo experimento, um BOYHOOD stalinista que combina cinema, ciência, performance, espiritualidade, arte e sociedade.

Curiosamente, o tal instituto sobre o qual esse “Show de Truman” se trata, existiu duas vezes. Primeiro, de 1938 a 1968, como o ultrassecreto Instituto de Pesquisa em Física e Tecnologia do antigo regime soviético e agora, uma segunda vez, como o maior cenário já construído (e destruído) na Europa para um filme. Portanto, aqui se filma um reality show que englobou, entre 2009 e 2011, centenas de não atores, pessoas e personagens confinados em mais de 700 horas de material bruto filmado e donde os participantes ali viveram como exatamente seus antepassados comunistas o fizeram, os mesmos uniformes, as mesmas funções. O modus operandi recriado em detalhes e, de volta ao passado, reconstituindo, revivendo, reportando esse universo espacial e temporal paralelo: uma simulação histórica meticulosa em que tudo, dos vestuários aos utensílios de cozinha, toda a comida, o dinheiro, o vocabulário, combinava com os objetos e hábitos da época.

Assim, nessa megalomania se retrata as histórias, os cientistas de outrora envoltos em suas pesquisas e teorias, guerra e caos, cada grupo se odiando mutuamente. E todos se espionando no microcosmo, imersos no “disse-me-disse” totalitário, nesse sistema heliostático austríaco dos anos 30, a luz dosada em um clima halógeno, oculto, claustrofóbico, cada cena filmada em sua própria continuidade, muito improviso, apenas duas câmeras portáteis para não atrapalhar a mise en scène, as experiências variando pelo psicológico, o intelectual e o fisiológico, indo aos limites, à exaustão. O público, idem. E é fascinante.

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REVIEW · BERLIM

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