There Is No Evil


Demônios não existem, THERE IS NO EVIL, anuncia o título e, de fato, não há: O filme abre no mais banal, um homem saindo do serviço em seu carro, buscando sua filha na escola, sua esposa no emprego, indo ao banco pagar um boleto, ou ao supermercado comprar banana. Nada especial, o filme segue simples como a rotina de qualquer um, segue uma faxina, segue a janta, lava-se a louça e todos vão dormir. E o público diante da tela até se convence que mal não existe, suspense não há, baixa a guarda e assiste impassível o despertador tocar, o homem levantar, se banhar, se barbear, e ir trabalhar. Então, surge o sinal: vermelho. E, depois o alarme: sonoro. Nada muda, mas a incerteza é angustiante, não há como evitá-la. O protagonista permanece indiferente, insignificante. Há torrada na torradeira, café no bule, um botão na parede… e de repente, o silêncio. Um ensurdecedor silêncio. O homem observa e calmamente aperta o botão. Um estrondo e você entende o título. A cena subsequente leva pouco mais de 10 segundos, estamos já em 30 minutos de projeção, mas todo o filme se passa em sua cabeça, os motivos pelos quais Mohammad Rasoulof o filmou escondido, o Urso de Ouro, a sentença e condenação do cineasta no Irã… De fato, não há mal. Existem escolhas.

Então, se faz um cinema de diferentes ângulos, quatro episódios em torno da “pena de morte” no Irã. E não sobre a sentença em si, mas as pessoas que a executam, os funcionários e jovens recrutas do exército que apertam o botão, puxam o banquinho, apertam o gatilho. Um longo filme sobre matar. Uma peça de resistência de como podemos assumir a responsabilidade por nossas ações num contexto de tirania arbitrária. De como podemos evitar a obediência cega às ordens imorais nessa estrutura de poder de opressores e oprimidos. E essencialmente sobre a nossa responsabilidade diante das quarentenas de consciência, de remorso, dos poderes dominantes que nos forçam a agir.

E os três contos seguintes aprofundam (ainda mais) o debate e o fazem diante do serviço militar. Seus personagens estão acuados no dilema da obrigação, das ordens, da falta de escolhas. Em “Ela disse: Você pode Fazer”, um recruta-carrasco não suporta a ideia de executar outro homem, não importa o quanto o exército lhe force a fazê-lo. Já em “Aniversário”, um jovem soldado retorna ao seu velho povoado para pedir a mão de sua noiva em casamento justamente no dia de seu aniversário, mas se surpreende com um velório. Por fim, em “Beije-me”, um médico que não pode praticar medicina, decide revelar um segredo que mudará a vida de sua sobrinha. E todos esses eventos filmados na corda bamba entre o certo e o errado, ação e reação, sem enumerar vilões ou mocinhos, sem grandes arroubos cinematográficos, mas de grande eficácia narrativa como se toda a ação, toda impressão, todo gesto, tivesse uma ordem clara, um significado bem definido. Sim, tal cinema tem uma moral. E você a vê claramente, sem sinais, sem alarmes, no simples apertar de um botão.

(*) Crônica livremente inspirada do material cedido pela Films Boutique, incluso a entrevista com o diretor
RATING: 80/100

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REVIEW · BERLIM

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