Undine

UNDINE é um maremoto. Um filme que nos arrebata logo numa lágrima e ainda no comecinho, lá no rasinho, vai se avolumando, a maré subindo, crescendo, cobrindo, nos engolindo, nós – o público -, cada vez mais submerso nos caracóis de Paula Beer, nos chamegos de Franz Rogowski e ainda mais fundo nesse abraço apertado, nesse amor intenso, repentino e absoluto, vai nos mergulhando profundo nas caricias entre o escafandro e a borboleta, a terra e o mar e, então, a onda surge de vez, repentina, violenta, e nos afoga por completo, nos estilhaçando, asfixiando, deixando sem ar, sem vida, no escuro, pensando se haverá vida outra vez, lá fora, além dessa sessão, desse filme. E por sorte ainda haverá, “stayin´ alive”, como cantava os Bee Gees, como bate o coração, nossos corações e, sim, ele bate forte, bem forte.

Undine é – também – a mulher traída das águas. Segundo o mito, ela vive em um lago na floresta. Um homem perdidamente apaixonado por uma mulher, cujo amor não é correspondido, que não sabe mais o que fazer consigo mesmo ou com seus sentimentos, que sofre de desespero absoluto, esse homem pode adentrar a floresta, ir às margens do lago e chorar pelo nome de Undine. E ela virá. E vai amá-lo. O amor entre eles será um pacto. E se for traído, o homem deverá morrer. Então voltemos ao filme, à lagrima e ao primeiro frame: Ali, o pacto se quebra, num gole de café, em campo e contracampo, Undine é rejeitada. “Sim, você vai morrer”, como diz a lenda, mas a personagem não deseja a maldição, retornar ao lago e a solidão da floresta. Ela não quer ir embora. Ela quer amar. Conhecer outra pessoa. E essa é a história de amor que Christian Petzold filma.

Então, uma genuína história de amor, como outrora o diretor retratou em BARBARA, PHOENIX e EM TRÂNSITO, mas esse se assume como um conto de fadas, longe do afeto impossível, danificado ou estagnado dos filmes anteriores. Aqui, UNDINE nos abraça, sufoca e mostra esse amor se desenvolvendo e permanecendo ad eternum, nos levando às profundezas e ali nos agarrando. Por esse amor, ela que lute. E ela o fará. Seu lago não é um lago encantado na floresta, mas um reservatório entre o romantismo e a industrialização. Seu habitat é um apartamento em Alexanderplatz, as ruas de Berlim, o discurso sobre várias maquetes da região, um lugar originalmente construído sobre pântanos, que basicamente foram drenados para se tornar essa cidade. Um cenário sem mitos próprios, um povoado moderno e montado, uma cidade outrora dizimada, destruída e demolida que cada vez mais apaga a sua memória. Mas não Undine. Essa não esquece.

Um filme de fantasmas. Um filme fantasma sobre fantasmas que querem se tornar humanos, querem ter uma vida. Undine vive um sonho. Ela já é humana, ela quer permanecer humana, mas as águas sempre lhe chamam. “Não, não quero voltar aqui novamente”. Mas o mundo amaldiçoado-encantado, esse mundo mítico não lhe deixa partir. Ele se apega a ela, é brutal, a puxa para baixo. Os mitos e contos de fadas, os mitos masculinos, deixam a protagonista em uma lamentável escassez de liberdade. Undine é uma mulher que precisa escapar dos homens, mas não consegue. Seu limbo é a água represada. O amor, um vale alagado. Abaixo da represa, está um cinema misterioso e oculto onde vivem velhas histórias. Acima, a modernidade, o aço, os homens, e ambos convivem no mesmo espaço donde a protagonista se perde… sim, UNDINE é um filme amaldiçoado, o amor é uma perdição, mas por esse instante vale a pena.

(*) Crônica livremente inspirada do material cedido pela The Match Factory, incluso entrevista com o diretor
RATING: 85/100

TRAILER

Article Categories:
REVIEW · BERLIM

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.