Never Rarely Sometimes Always


Lá pelo terço final do filme, você entende o título. Na tela, duas personagens se sentam em uma mesa qualquer de uma sala qualquer. A protagonista – você sabe – veio de lugar nenhum, de muito longe e sem dinheiro. Está ali para fazer “coisas de garota”. A mulher diante dela veio para aconselhar. Então, num frame, o tempo congela. Nada mais importa. Não há escolhas, nem dilemas. O filme, essa cena, a personagem, tudo se torna Outono – ou Autumn, esse é o nome da garota – e como seu nome, todo o cinema esmorece. A câmera foca em Sidney Flanigan – esse é o nome da atriz -, seu rosto não chove há dias, seu olhar contempla a montanha com raiva. Ali, você ouve um sussurro, talvez um pássaro, talvez um grito, talvez a dor, mas são as folhas revirando em sua mente, folhas que caem cobrindo os olhos, enquanto o vento se transforma em movimento. Um segundo se passa. A conselheira enfim pergunta. São “perguntas pessoais”, ela diz. Ela não entende, mas você entende. Você entende. Você entende. E talvez ali, como a protagonista, fique também na escuridão NEVER RARELY SOMETIMES ALWAYS. “Tudo o que você precisa fazer é responder”.

É um momento impressionante que precisa de todo um filme para se construir. Um road-movie que veio da Pensilvânia rumo à Nova York. A história de duas garotas – Autumm e sua prima – em crônica da realidade, donde o diálogo é muito livre, a câmera espontânea, o estilo gestual. Um cinema escrito em reticencias, muito quieto e reservado, pessoal e introspectivo, e de certa forma misterioso.

Tudo o que Eliza Hittman faz é filmar, os pequenos momentos, as pequenas interações, observando e observando suas adolescentes – como aliás, sempre o fez em sua filmografia, outrora em RATOS DE PRAIA e PARECE AMOR. E a cineasta vai filmando, sua câmera propositalmente confusa, enquanto os homens – jovens, adultos, idosos – invadem a projeção, assediando e assustando. São cenas comuns. Assustadoramente comuns: o padrasto lhe chama de “putinha”, um colega de escola lhe provoca, um desconhecido no trem lhe amola. E a protagonista persiste em sua via sacra burocrática, em busca do que lhe é de direito – sua escolha (!) -, mas que lhe é negado. O tempo passa. Nada tão explosivo quanto 4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS (como um dia, um romeno filmou), mas igualmente tortuoso e sensível. Este é o filme. E o questionamento pelo qual jamais teremos respostas claras.

(*) Crônica livremente inspirada do material cedido pela Focus Features, incluso entrevista com o diretor
RATING: 81/100

TRAILER

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REVIEW · BERLIM · SUNDANCE

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