Quarto 212


QUARTO 212 é Honoré no “Honoréverso”. Um complexo filme aonde Chiara Mastroianni (re)visita seus amores, seus amantes, seu marido, a “ex” do marido, o velho, o novo, a mãe, a avó, até o Astrogildo e todos no quarto. As portas se abrindo, se fechando, os personagens indo e vindo como um estranho sonho, para essa intrigante terapia que nada mais é do que a discussão do que é o amor, as escolhas que fazemos pelo amor e daí o multiverso de loucura de outras vidas de quem já amamos, quem amaremos, as paixões, as intrigas, os filhos, o que seria ou não. E todas as possibilidades trancadas no quarto (ou nossa mente?), na noite de inverno, no hotel perto do bar Rosebud e do apartamento donde vive seu amor (ou não). Um filme donde Chiara é diva absoluta, que abre o filme já divando sobre Astrogildo. E segue (in)segura de si em cada frame, nessa divertida reflexão particular e ao lado do bumbum branco de Vincent Lacoste.

Um filme feito e filmado em fluxo, que veio de outro filme, não filmado, mal escrito, mas que é sua fonte secreta: uma história de Ocupação, dos anos 50, sobre um pintor imaginário, um piano, Picardia, Ópera Garnier e duas personagens femininas, que guardavam um segredo ao qual não tinham conhecimento, mas que logo foi abandonado porque o cineasta precisava CONQUISTAR, AMAR E VIVER INTENSAMENTE. Então, veio o verão, outro filme, CUPIDO É MOLEQUE TEIMOSO, Irene Dunne e Cary Grant, um casamento infalível depois do divórcio e voilá: uma comedia envolta em conversas conjugais, cheias de segredos e esquetes geniosos.

O resultado é um trabalho desconstruído, ou pelo menos construído de várias influências, uma corrente tenaz que nos leva embora sem nos dar escolha, ao filme, ao quarto e nós depois dele, em direção a um destino prometido e totalmente inesperado. Muitos personagens, tantas paisagens cruzadas, um caleidoscópio de olhares rápidos, da direita, da esquerda, surpresos e tranquilizadores. E nesse frenesi, uma doce alegria, sentir-se menos sozinho do que nossas obsessões, nossos becos sem saída, para verificar nos outros o mesmo sentimento, o nosso sentimento.

Um quarto com vista, com apego, quase encantado e que nos deixa levar por suas paredes, numa dança de passos esquecidos, todos seduzidos por seus feitiços. E pouco a pouco, nesse jogo precioso da metáfora, de favorecer a magia das asas, do artifício, no trabalho que visa trazer vida ao coração, eis um filme, uma história (ou várias?), senão a “Câmara do Amor” ao qual amamos loucamente.

RATING: 77/100

TRAILER

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REVIEW · CANNES · RIO

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