O Paraíso Deve Ser Aqui


Por Eduardo Benesi

O auto-filme é sempre um bom parâmetro para analisarmos se há algum tipo de limite para a apropriação egoica por parte de quem faz arte e resolve por acaso falar de si. A resposta fácil seria dizer que isso configura narcisismo, mas quem sou eu não é mesmo telhado de vidro? Tem o caso de Elia Suleiman que resolve protagonizar o próprio filme, só que essa auto-referência presta uma divisão de espaço com tudo o que não é ela – apesar dela. Vejam a esquemática: o narrador é semi-mudo, o co-protagonismo é da figuração, a nós cabe um papel de cúmplices óticos em plena flanagem e nenhum relógio. É assim que O PARAÍSO DEVE SER AQUI nos acolhe enquanto obra-prima, nos chama para olhar junto, nos aloca em não-lugares dentro de outros formalmente estabelecidos, nos oferece o próprio manual do olhar-não-dito intercalando assimilações culturais.

Eu-espectador em algum momento passo a achar que o filme também é sobre mim, ou sobre quem eu quero ser, ou sobre o que eu penso do mundo. Uma obra opera em si a sua auto-resolução quando anuncia o seu último corte de edição. Mas a sua operatividade só se valida nessa mescla entre o nosso repertório vivencial e a aventura fílmica. A isso chamamos de identificação e em um estágio mais conflituoso de projeção.

Um filme sente por nós? Ou nós que sentimos por um filme? Um escritor que fala sobre si e por acaso usa o cinema como mediador retórico. Isso pode Scorsese? Ou vai pra Marvel que te pariu? Alguém levanta a hipótese de isso ser um ensaio com crítica embutida, ou na convenção-do-lugar-de-fala a acusação do dia é: um escritor roubando o protagonismo de seu próprio texto. Vejam quantas as hipóteses, inclusive um álibi despretensioso, disso ser uma crônica ou um oportunista que acaba de batizar seu repertório para ‘autocríticas de cinema’.

Elia Suleiman faz um pouco diferente, prefere não dizer seu nome, apenas de onde vem. Quem sabe seja essa a grande pulsão do cinema enquanto painel de identidades. Alguém dizendo de onde vem ou para onde quer ir? Nessa coleção de pequenos agoras, nenhum tédio é pacato, a importância do banal brota da inércia produtiva, a sátira política brinca afônica pela imagem e pela imagem se vingará. O diretor prefere não dizer o que faz, apenas existe fazendo. O riso não vem da contemplação da graça mas da graça da contemplação. Um pássaro invade repetidamente a ação fílmica para que um Palestino defenda seu território. Um filme rouba as ruas para si como se cada locação estivesse limpa para a metáfora.

Ao longo do trajeto vamos descobrindo que uma viagem pede pelo olhar silencioso ou por fotógrafos que não tirem fotos e então tudo importa mais em cada pequeno grande acontecimento.

RATING: N/T

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REVIEW · CANNES · TIFF · MOSTRA SP

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