Family Romance, Ltda.


Por Eduardo Benesi

Quando existe o olhar faminto de um diretor para a cartografia do encontro, para as margens da insuficiência, para as entrelinhas do imediato, é então que a sétima arte brilha a própria vida em uma tarde de cerejeiras.

Werner Herzog não me parece um burocrata corporativo, está mais para o aventureiro buscando o néctar, o que pretende instigar a partir de suas próprias investigações mundanas. Em FAMILY ROMANCE LTDA, o cineasta pretende se aproximar do vazio contemporâneo sem para isso incentivar nossa rejeição. Uma agência japonesa oferece aluguel de atores para cumprirem papéis afetivos reais de acordo com a necessidade do contratante. Pai de aluguel. Paparazzis fakes. Ou o caso da mulher que ganhou na loteria e que paga para que alguém lhe dê a notícia novamente só para sentir a mesma sensação. A empresa existe de fato e o protagonista do filme é também o dono em instância real.

O Japão é um país de crescente adesão de homens comprando bonecas que substituam parceiras humanas. Restaurantes oferecem pelúcias gigantes como companhias para pessoas que almoçam sozinhas. Adultos esquecem seus filhos por dias em casa e ficam enfurnados em casas de jogos eletrônicos. É útil olhar o enredo desse longa a partir de hábitos locais que em um primeiro momento apontam para uma carência generalizada gerando a oferta & procura de preenchimentos afetivos artificiais. Deleuze disse em uma entrevista que no capitalismo só uma coisa é universal, o mercado. Não existe Estado universal. Parto primeiro desse microcosmo para depois lembrar que o mecanismo de consumo compulsivo é um fenômeno essencialmente ocidental e esse ‘contágio’ é também uma fonte de observação para entendermos como agentes antes exógenos interferem no cerne de uma cultura a ponto de acharmos uma coerência tão territorial quanto global.

Herzog faz uma dupla incursão em seu estudo, coloca o protagonista em um núcleo fixo de conflito que atravessa a história inteira e ao mesmo intercala vários pequenos casos também envolvendo Ishii Yuichi mas com uma abordagem mais ágil no sentido resolutivo e sem fixação narrativa. Não é aleatório. Começamos a entender a diferença de sequelas entre criarmos uma farsa permanente e outra efêmera. Entre o apego e a liquidez o cineasta joga mais uma armadilha ao mostrar que mesmo os enganados também estão sujeitos a mentir para os enganadores – porém já estão previamente ‘absolvidos’. O jogo de artificialidade se sobrepõe em camadas que não se acusam pois existe a lucidez do paradoxo, isso culmina em uma bonita conclusão empática. Eis um mockumentary que cumpre bem a arte de brincar a sério e que nos deixa uma interessante inquietação: quem abraça o simulacro remediado está?

RATING: N/T

TRAILER

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REVIEW · CANNES · MOSTRA SP

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