A Fantástica Viagem de Marona


Por Eduardo Benesi

Há algo de cansativo na perfeição quando você não tem um intervalo de repouso ótico entre-deslumbres. As cores: tantas, todas, quantas. O universo das animações parece sempre buscar uma regência que eleve o conteúdo a um altar plástico e muitas vezes vai longe na ambição. Mas cores são estímulos e interferem no vocabulário visual (ou pinicamento ótico). Talvez o grande defeito estético de A FANTÁSTICA VIAGEM DE MARONA seja esse capricho em exaustão, romerobriticamente falando é algo que transforma a competência gráfica em gordura ofuscante. Podemos cair em uma espécie de tédio da invariação.

A história em si a gente já conhece de outras odisseias lacrimais. É filme de chorar por cachorro só que em formato desenho. É uma história de talento alugado que planeja as nossas lágrimas com torrões de açúcar textuais, jogados como iscas poéticas e isso está bem evidente desde o prólogo. Lamento minha própria afirmação mas ao mesmo tempo ela me leva a uma pergunta saudável ao cinéfilo: quando foi que eu comecei a ir no cinema para resistir racionalmente ao botão emotivo? Qual a vantagem de decifrar o intento da manipulação se eu vim em busca dela?

Mas dizer que é um produto ruim seria de uma injustiça sem tamanho. Principalmente por se tratar de uma fábula sobre a rejeição que sabe mostrar exatamente a chave de desistência de cada dono e o quanto o ser humano pode ser leviano quando elege um objeto de afeto ao qual não há nenhum acordo de perenidade. Vamos entendendo a partir desse nomadismo involuntário da cadelinha e o seu currículo de decepções que a relação humano-pet permeia – e muito – uma certa objetificação afetiva ou o conceito de inquilismo (ou comensalismo).

Quem sabe usarmos esse tipo de história para lapidar a noção de responsabilidade afetiva? Entender um pet como um eixo intermediário das nossas gestões relacionais. Antes deles os brinquedos da infância, depois deles os contratos informais com os nossos afetos humanos. É certo que o espectador é sempre alguém que faria melhor quando na inércia da poltrona ou jurado da vida-outra-ficcional. Mas eu desprezo com convicção cada dono que abandonou Marona e digo mais: o vira-lata é sempre um labrador melhor que o do pedigree.

RATING: 70/100

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ANIMAMUNDI · REVIEW · MOSTRA SP

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