O Pássaro Pintado


O título se refere ao (frustrante?) passatempo de um homem que gosta de capturar um pássaro, pintar suas penas de cores diferentes e observar como seus antigos companheiros o despedaçam como um intruso. O carnaval surrealista de violência torna-se ainda mais assustador quando visto sob o ponto de vista de um garoto que percebe tudo como normal, ele próprio não conhecendo outro destino e sofrendo com a resistência dos verdadeiramente inocentes. Então, Jerzy Kosinski escreveu essa história (autobiográfica ou não, isso é outra história) e Václav Marhoul a filmou. E o faz em película, preto no branco e proporções cinemascope para capturar com precisão, tanto a beleza quanto a crueldade de cada frame. Seu filme é um exercício de violência e depravação das pessoas e flui rapidamente entre histórias de sofrimento. E todavia não é um filme sobre as pessoas em si, mas do que elas podem fazer umas com as outras.

O início da Segunda Guerra separa o garoto judeu de sua família e o coloca à deriva entre os camponeses da Polônia rural. E ali, com os olhos negros, arregalados e em terror, sem saber se está vivo ou morto, ele testemunha as atrocidades e a degradação da batalha, daqueles que fogem, que lutam, que sobrevivem. Pouco importa se está na Polônia ou em outro lugar; nem que vague sozinho pela floresta escura, se é judeu, cigano ou mesmo mendigo, o mais importante é a situação desse garoto como um próprio estranho, O PÁSSARO PINTADO bicado pelo bando que mal o reconhece. Sim, estamos em guerra, no próprio horror, mas a história assume um significado universal, uma série de esquetes que cumulativamente levam o protagonista nessa jornada ao lado mais sombrio da humanidade e donde cada cena é uma pista visual, uma espécie de fragmento perdido (de humanidade?) que atrai o menino irrevogavelmente para uma catarse final.

Sim, um filme envolto de “poesia” e, todavia, carregado de urgência silenciosa, o peso do mundo sobre os ombros do garoto, um mundo donde a natureza é inegavelmente bela, apesar do horror que a cerca. E também a história do cenário histórico e geográfico de um mundo selvagem e primitivo que se perdeu, personagens que o garoto encontrou, que abominamos, que lamentamos, isso no silencio absoluto, um texto quase inexistente, apenas essa imagem. Crua. Brutal. Violenta. Não há monólogo interior ou narração explicativa. Apenas o senso da realidade, filmado em ordem cronológica e aos olhos desse menino, um espectro frio e impenetrável, endurecido pela provação e um cinema pictórico.

(*) Crônica livremente inspirada do material cedido pela Celluloid Dreams, incluso entrevista com a diretor e notas de produção
RATING: 65/100

TRAILER

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