O Paraíso Deve Ser Aqui


Em seu filme exilio, Elias Suleiman foge da Palestina em busca de um novo lar, antes mesmo de perceber que seu país ainda o segue como uma sombra. Sua jornada é uma doce canção, um sonho contido, um navio entregue ao vento, aos olhos e desejos do mundo inteiro. E o mundo inteiro são os segredos contidos nos olhos desse cineasta ancorado em película e melancolia, indo de um país a outro, de uma promessa à outra, as lembranças despachadas junto em comédia de absurdo.

Sim, se fosse um filme de Roy Anderson, seria apena UM POMBO POUSADO NUM GALHO REFLETINDO SOBRE A EXISTÊNCIA, mas aqui, o olhar é mais profundo e sincero: estamos na Palestina e ali vive o pássaro sol, o colibri multicor símbolo dessa (faixa de) terra que não existe. E para o cineasta, para os poetas, essa “terra é estreita. Ela nos encurrala. A terra nos espreme. Fôssemos nós o seu trigo para morrer e ressuscitar, fosse ela a nossa mãe para se compadecer de nós, fôssemos nós as imagens dos rochedos que o nosso sonho levará como espelhos… Para aonde iremos após a última fronteira? Para onde voarão os pássaros após o último céu? Aonde dormirão as plantas após o último vento? A terra é nosso sangue. Na terra morreremos. Nessa terra plantaremos oliveiras”. Então, DEVE SER O CÉU, como cita o título, esse filme em busca de identidade, nacionalidade e pertença; esse conto que busca o significado de se “estar em casa”.

Então, a história de um homem que encontra a sua pátria em outro lugar, não ali onde deveria estar, mas no estrangeiro, no mais comum e cotidiano possível, entre as pessoas de cada canto, com suas manias e tensões, nos seus afazeres, além da janela, dos muros, na rua, no trem… o cineasta observa e com ele, o Palestina, o passarinho que adentra a janela em busca de atenção como se fosse um pequeno personagem de uma esquete de Buster Keaton, que caminha tão pequeno, pela mesa, bicando o protagonista como os coadjuvantes fazem, mas não se engane, o pássaro é o destaque de um filme que mira no invisível.

(*) Crônica livremente inspirada do material cedido pela Le Pacte, incluso trechos do poema “A terra nos é estreita”, do palestino Mahmud Darwich
RATING: 79/100

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REVIEW · CANNES · TIFF · MOSTRA SP

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