An Officer and a Spy


Culpado ou inocente? Aos 86 anos, Roman Polanski ainda tem algo a dizer e o faz através de uma história de espionagem e mistério, uma reinterpretação à sua maneira do famoso “caso” Dreyfus, que dividiu a França no final do séc. XIX e marcou o renascimento do antissemitismo. Um julgamento que inflamou as forças armadas, os políticos, a opinião pública e se arrastou por quase 12 anos, o próprio capitão franco-judeu Alfred Dreyfus, acusado, sentenciado e condenado por vazar informações ao inimigo alemão. Embora, como se constatou mais tarde, fosse inocente.

E é sobre esse episódio que Polanski adapta o romance homônimo de Robert Harris (o mesmo dO ESCRITOR FANTASMA), mas aqui com certa dose de ficção e suspense, e não sobre o ponto de vista de Dreyfus (Louis Garrel), nem de Emile Zola, que denunciou a injustiça num artigo histórico (“J´accuse”, o título francês), mas de Georges Picquart, outsider social e comissário de contraespionagem militar que descobre toda a falcatrua. Na tela, ele é Jean Dujardin, o fio condutor que nos apresenta as investigações, desmantelou as acusações, o próprio filme em si. Um grande cinema discursivo, cuja fluidez da câmera, a dissimulação da história, a montagem precisa, donde nenhuma costura é visível, donde toda a técnica é camuflada em favor do resultado, nos submerge num conto intricado, complexo e repleto de subtramas. Um cinema antigo como outrora faziam os grandes cineastas, um filme-museu que nos remete imediatamente à genialidade dO BEBÊ DE ROSEMARY, REPULSA AO SEXO e ARMADILHA DO DESTINO, e que não nos cansa de surpreender, oprimir ou controlar em sua atmosfera sombria, no espírito de intriga, na construção do mito do bode expiatório.

E assim, partindo ao mais pessoal, Polanski assina sua obra mais autoral e catártica, cada frame carregado de indignação, de intensidade, de uma força profana, talvez por sua própria identificação com o tema por razões bem conhecidas, o interminável processo americano que o levou ao exilio na Europa e que o martiriza até hoje. E a projeção vai além dos créditos, isso pelos significados, as ressonâncias e afinidades entre os dois casos. Um cinema feito na raiva, no tom mais sombrio e ameaçador possível, filmado nas ruas esmerdeadas, na papelada empoeirada, no catálogo interminável de crimes, traições e testemunhas do tribunal. E tudo sem perder a compostura, o culto aos uniformes, o frufru e a métrica do cinema. Culpado ou inocente, fato é que NA OFFICER AND A SPY é um provocador metadiscurso. Um cinema de revide.

(*) Crônica livremente inspirada do material cedido pela Playtime, incluso entrevista com a diretor e notas de produção
RATING: N/T

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VENEZA · PREVIEW

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