Retrato de uma Garota em Chamas


Evocando um genuíno olhar, que um dia pertenceu à Ingmar Bergman e Jane Campion, e entre o rococó e o neoclássico, Celine Sciamma foi à Bretanha de 1770 para filmar o RETRATO DE UMA GAROTA EM CHAMAS, uma história de amor, feminino e feminismo e isso em trajes de época e espartilhos, uma fantasia que dispensa a atenção dos homens e/ou qualquer fetiche masculino e que fica atento apenas à silhueta de suas atrizes, o desenho do rosto, o esboço das mãos, o rabisco dos corpos, um sorriso ou não, cada detalhe desse afresco pintado na tela em óleo e película.

Um cinema que se restringe à três ou quatro mulheres, mas se inspira entre outras cem: são mulheres jovens, artistas femininas, pintoras, retratistas, críticas de arte, mulheres como Elisabeth Vigée Le Brun, Artemisia Gentileschi ou Angelica Kauffman; mulheres de sucesso, mas que ficaram longe dos relatos históricos; mulheres esquecidas, invisíveis, que viveram no anonimato ou sigilo e ali ficaram na historia da arte. Nesse contexto, a cineasta foi à um château e lá vestiu seu filme de acessórios e adereços, madeira e tecidos para, então, retratar a intimidade, a restituição da emoção.

Então, um cinema de olhares e observação, inspiração e paixão, com dois desejos aparentemente contraditórios subjacentes à escrita. Em primeiro lugar, o passo a passo de se apaixonar, o presente puro e o prazer dele. Ali, a direção se concentra na confusão, na hesitação e na troca romântica. Em segundo lugar, a história do eco de um caso de amor, de como ele (sobre)vive dentro de nós em todo o seu escopo. Então, a direção se concentra na recordação, sendo o próprio filme, uma lembrança do amor platônico. A cineasta conjuga esse arco em dois momentos, o antes e o depois, passado e presente, nostalgia e melancolia, criando uma experiência de dupla temporalidade que nos permite experimentar essa emoção do começo ao fim, entre perder a alegria, mas também recuperar. Também o desejo de uma linda história de amor baseada na igualdade, não em hierarquias e relações de poder e sedução. O roteiro se restringe somente ao sentimento, o diálogo que surge espontaneamente e nos surpreende.

Todo o filme é regido por este princípio nas relações entre os personagens. A amizade com a criada, que vai além do relacionamento de classe, as discussões francas com a condessa sobre os desejos e aspirações. Toda essa honestidade transparece e vai direto ao coração, que arde, queima e, afinal, se debulha em lágrimas num último suspiro.

RATING: 84/100

TRAILER

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REVIEW · CANNES · TIFF · SAN SEBASTIAN

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