A Hidden Life


A HIDDEN LIFE é certamente o filme mais longo, mais político e mais religioso que Terrence Malick já fez. Sim, um cinema de retorno às origens, à narrativa básica de outrora, mas também um regresso na grandiosa retórica esotérica, no (re)encontro espiritual com A ÁRVORE DA VIDA, no filme-relicário donde tudo é sagrado e divino, solene e natural e que, portanto, guarda consigo esse brilho milagroso em cada imagem, seus vales, as montanhas, as cachoeiras, todo o esplendor emoldurado em gigantesca lente panorâmica e magnífico 4K digital. Além disso, uma prece, uma oração de silêncio para a devida comunhão de paz, os sinos, os pássaros, os rios, as foices e o vento… afinal a igreja donde o cineasta reza sua missa em eterna poesia e coro santíssimo.

A história serve seu propósito, são cartas de amantes separados pela guerra, murmuradas ao fundo, quase que sussurradas para dar o tom dos acontecimentos. As cartas de um pai que se nega a lutar. As cartas de uma mãe que deve lutar, o filme se divide entre eles e o cosmos, entre Malick e o espírito santo. Um conto mergulhado na História, no calvário moral de Franz Jägerstätter, o agricultor-mártir-santo que recusou fidelidade à Hitler e sofreu por isso – ele e sua família – lá em Radegund, o pequeno vilarejo da Áustria ou, então, na prisão de Berlim, donde teve sua sentença. E por tais locais, o cineasta entoa o mais belo já feito, um complexo vitral de texturas, autenticidades e escopo visual. A luz retratada com a devida reverência em cada cena, cada frame filmado com a luz natural pelo tempo que houvesse luz. A guerra, no entanto, está fora de quadro.

Um filme de um homem devoto, seja o personagem crente de sua devoção até o final, seja o diretor-profeta que almeja as CINZAS DO PARAÍSO. E assim, através do invisível, o cineasta guarda a obsessão de filmar todo o Universo em um frame, ele próprio se tornando o infinito, a inteligência suprema que edita cada cena, a vida de cada ser e sempre no mais poético e prolixo possível que caiba em uma tela de cinema. Seu filme, pelo tempo que for, não tem começo nem fim. É o desconhecido suspenso em loop eterno. O oculto que nós, mortais, somos incapazes de entender. Então, só nos resta admirar tal epifania enquanto humanos somos. E por todos os 173 minutos de projeção. Cada minuto, um suspiro no mais longo, político e religioso possível. Não importa o tempo, isso é apenas um vislumbre sobre os mistérios da vida.

RATING: 80/100

TRAILER

Em Breve…

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REVIEW · CANNES

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