Liberté


GRITOS E SUSSURROS, Sodoma e Gomorra, Albert Serra não se inibe e funde UM ESTRANHO NO LAGO com o REI SOL, nesse fantástico Filme-Instalação-Museu, senão um cruising em dois cortes, dois filmes diferentes projetados em telas opostas, cada filme observando o outro, cada filme observado em seu fetiche bizarro, enquanto o espectador confrontado entre as duas telas, direita e esquerda, oscila o olhar em cada cena-ato, como se estivesse num sádico jogo de tênis.

Em Cannes, esse projeto idealizado (e financiado) pelo Museu Reina Sofia, torna-se apenas um filme, as duas telas se mesclam em “Un Certain Regard”, mas permanece a essência, algo entre Marquês de Sade e o desejo carnal, a luta entre o fetiche e a moralidade, entre a emancipação e a ética, ou entre um mundo de deboche e outro de limites. O diretor enfrenta essa controvérsia em uma abordagem única, pela pompa despudorada entre Madame de Dumeval, o Duque de Tesis e o Duque de Wand, libertinos expulsos da corte puritana de Louis XVI, para encontrar sob a circunstância do Duque Walchen, um cenário mais livre e sedutor, um lugar seguro para continuar seus jogos frívolos.

Então, o filme se desenrola às margens da floresta (e da sociedade), numa espécie de paraíso perdido, onde homens e mulheres, encalhados como faunos, esperam pelo amor entre as estrelas. E nesse contexto, aconteça o que acontecer, os personagens realizam suas fantasias, quase numa obsessão. Tudo é permitido e tudo está em toda parte. Homens surgem do nada, se excitam, se tocam, as mulheres aguardam em suas carriolas. Há muito flerte e pavoneio, muito contato e frufrus, todos se observam e ninguém perde o olhar. As silhuetas se confundem com fantasmas, o pó de arroz em suas faces lhe dá o tom mais feérico possível. Não há qualquer pudor, embora o sexo seja retratado às sombras, iluminado por velas e lampiões, chibatadas e orgasmos. Ame ou deixe, o cineasta segue os trilhos “enfant terribles” de Gaspar Noé e Lars Von Trier, mas num caminho próprio, diria particular, no rastro (ou cruising?) da Corte Francesa. O resultado, sim, é UM ESTRANHO NO LAGO à lá Marie-Antoinette. Um filme BDSM rococó. Vivre la LIBERTÉ!

RATING: 80/100

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REVIEW · CANNES

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